Lula escolhe ex-governador do Ceará Camilo Santana para comandar Ministério da Educação
Por Paula Ferreira — Brasília o globo
O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva definiu que o comando do Ministério da Educação ficará com Camilo Santana, ex-governador do Ceará e senador eleito pelo PT. A atual governadora do estado, que também estava cotada para comandar o MEC, Izolda Cela (PDT), ficará com a secretaria de Educação Básica da pasta. O anúncio oficial dos nomes deve ocorrer até quinta-feira, mas ainda não foi fechada a data.
A decisão foi tomada na noite desta segunda-feira, após uma reunião entre Camilo, Izolda e Lula, em Brasília. Também participou do encontro o governador eleito do Ceará, Elmano de Freitas (PT).
Desde que Lula foi eleito, o nome de Izolda circulava como principal aposta para comandar o MEC, mas a atual governadora do Ceará perdeu força na reta final. Com atuação histórica na área da educação, petistas não queriam abrir mão do MEC. Além disso, havia uma leitura de que não haveria espaço para dois representantes do Ceará na Esplanada e que Camilo Santana deveria ter preferência.
Também pesou contra Izolda sua ligação com fundações empresariais, como a Lemann. A organização tem em Sobral (CE) um dos principais polos de parceria em suas ações na área da educação. No início do mês, a governadora participou de um evento da Fundação e foi ovacionada. O episódio desagradou a cúpula petista.
Paralelamente, o nome de Camilo Santana passou a despontar na corrida pelo MEC. De acordo com aliados, o ex-governador queria originalmente outras pastas: Desenvolvimento Regional ou Cidades. O plano acabou não decolando e Santana foi escolhido para o MEC. Os bons resultados do Ceará na área legitimaram a escolha de Santana para a pasta.
Segundo interlocutores a mudança foi recebida com naturalidade por Izolda, que teria compreendido o contexto político. Os dois têm uma relação de longa data, Izolda já foi candidata a vice na chapa de Camilo Santana por dois mandatos.
A escolha de Camilo Santana para o MEC serviu para conter, ao menos temporariamente, os ânimos entre petistas, que estavam incomodados com a possível escolha de Izolda para o cargo. A avaliação de membros do partido, no entanto, é de que a calmaria dependerá do nível de participação do partido no comando do MEC, seja em relação à ocupação em cargos de segundo escalão quanto em relação à condução de políticas educacionais. Membros antigos do PT consideram que Camilo Santana não é um representante "raiz" do partido e advogavam pelo líder da sigla na Câmara, deputado Reginaldo Lopes, para a vaga de ministro, o que não prosperou.
Apesar da resistência, mesmo esses petistas reconhecem que Camilo é um dos principais quadros do PT e rendeu vitórias importantes ao partido, como a eleição de Elmano Freitas em primeiro turno no Ceará frente ao candidato Roberto Cláudio (PDT), apoiado por Ciro Gomes. Partindo deste aspecto, há uma avaliação de que é melhor que ele esteja à frente do MEC e não Izolda.
Governador por dois mandatos, de 2014 a 2022, quando saiu para disputar o Senado, Camilo Santana conseguiu imprimir ritmo à evolução de aprendizagem no Ceará. De 2015 a 2019, o estado registrou crescimento no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), principal indicador da educação básica brasileira, em todas as etapas de ensino. O índice de 2021 não foi considerado para comparação devido à pandemia.
O ex-governador chega ao MEC com a missão de recuperar a aprendizagem perdida durante a pandemia e administrar a escassez de recursos que coloca em risco as políticas públicas desempenhadas pela pasta. Um dos maiores orçamentos da Esplanada, o MEC é uma vitrine para quem o assume. Camilo Santana terá a responsabilidade de corresponder ao histórico de bom desempenho dos governos de Lula na área. Durante a gestão do petista foram criadas políticas de peso no MEC como o Prouni e o Sisu.
O nome de Camilo Santana para o MEC foi recebido de maneira diversa na área da educação, mas não foi alvo de resistência do setor. Se por um lado, o novo ministro é visto como um nome político e não técnico, por outro, essa mesma característica é vista como um ponto positivo para melhorar a relação do MEC com o Congresso, extremamente abalada durante os anos de governo de Jair Bolsonaro.
Há ainda a percepção de que o fato de ter comandado um estado com tradição na área o coloca numa posição de liderança, mas gestores ponderam que como ministro Camilo deverá olhar para outras experiências de êxito e não só tentar reproduzir o que fez no Ceará.
Para o presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), Luiz Roberto Liza Curi, o trabalho de Camilo Santana durante seus oito anos como governador o credencia para o cargo.
— Foi um governador comprometido com a educação. Continuou, criou e manteve políticas públicas consistentes. Combateu o abandono e fortaleceu o aprendizado nas escolas públicas. A educação continuada é a base do desenvolvimento e do futuro da nação — opinou Curi.
Entre os líderes estudantis, a escolha foi vista com otimismo. Os estudantes têm expectativa de reabrir o diálogo com o MEC e levar ao novo gestor as propostas para a área.
—Esperamos que o novo ministro tenha sensibilidade em ouvir os estudantes e as demandas da educação, visto que nos últimos anos passamos por uma devastação de desmonte no MEC. Temos como prioridade a recomposição orçamentária e a garantia da permanência estudantil — afirmou Bruna Brelaz, presidente da UNE.

