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Prefeitas (se) importam

Ana Carla Abrão, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2021 | 04h00

Os longos meses de pandemia levaram pessoas queridas e deixaram sequelas. Novas questões surgiram e outras antigas foram reforçadas. As questões de gênero ganharam força, refletindo mais uma assimetria no impacto dessa crise que tanto machucou os que menos têm. No mercado de trabalho, o aumento proporcionalmente maior no desemprego entre mulheres revelou a vulnerabilidade no emprego feminino. A divisão desigual do trabalho em casa sobrecarregou ainda mais mulheres do que homens, e vimos a violência doméstica explodir. Ao mesmo tempo, debates novos ganharam força, ressaltando a importância de políticas públicas que evitem o absenteísmo feminino nas escolas, assim como o aumento na oferta de creches e da licença parental para garantir maior representatividade de mulheres no mercado de trabalho.

Congresso
As questões de gênero ganharam força, refletindo mais uma assimetria no impacto dessa crise que tanto machucou os que menos têm. Foto: Dida Sampaio/ Estadão

Mas foi no campo da liderança pública que a pandemia fez emergir outro tema. Motivados por evidências anedóticas indicando que gestões femininas foram mais eficazes, trabalhos científicos se debruçaram sobre a influência de líderes mulheres nos resultados da pandemia. Vários deles chegaram a resultados inconclusivos. Não foi esse o caso de Under pressure: Women´s leadereship during the covid-19 crisis (“Sob pressão: a liderança feminina na crise da covid-19”). Escrito por Rafael Bruce, pesquisador do Insper, em coautoria com Cavgias, A., Meloni, L. e Remígio, M. (sim, todos homens), o trabalho mostra que eleger mulheres faz diferença.

Com base nos dados de internações e mortes dos municípios brasileiros, os autores usam o período da pandemia para avaliar o impacto da gestão de prefeitas durante a crise e chegam à conclusão que em cidades administradas por prefeitas o impacto da covid-19 foi significantemente menor quando comparado a municípios geridos por prefeitos. Os municípios que elegeram prefeitas em 2018 reduziram internações e mortes entre 30,4% e 33% e de 37,2 a 43,7%, respectivamente, relativamente à média daqueles que elegeram prefeitos. Mais, o efeito é maior nas cidades onde o presidente Jair Bolsonaro, defensor de medicamentos sem eficácia comprovada e contrário ao uso de máscaras e do isolamento social, teve maior votação nas eleições de 2018, mostrando o impacto das lideranças locais na neutralização de políticas públicas federais ruins.

O trabalho de Bruce et al é uma nova evidência a jogar luz sobre a importância e a urgência de aumentarmos a representatividade feminina na política e na gestão pública brasileiras. Não só porque é justo, mas também porque será melhor para o País.

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