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A responsabilidade dos partidos

O Estado de S.Paulo

03 Janeiro 2018 | 03h09

Em entrevista ao Estado, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi certeiro ao apontar a necessidade de os partidos comprometidos com a continuidade das reformas aglutinarem suas forças em torno de um candidato à Presidência da República eleitoralmente viável. “É preciso que haja lideranças capazes de organizar. Há o perigo de que um demagogo dê sensação às pessoas de que vão influenciar a favor dos que mais precisam”, disse Fernando Henrique, ao comentar o seu temor de “que não se consiga organizar o centro”.

Não basta que o candidato seja conhecido de boa parte da população ou possua uma história na vida pública. A responsabilidade com o futuro do País deve levar a que os partidos políticos não populistas se unam em torno de um candidato com possibilidades reais de ganhar. Se esse caráter prático deve estar sempre presente na política, ele se torna ainda mais premente nas atuais circunstâncias.

“Chegamos a um ponto em que é preciso unir, colar. Está tudo muito desagregado”, disse Fernando Henrique. A desagregação é parte significativa da crise política, social, econômica e moral que o sr. Lula da Silva instaurou no País, nos anos em que o PT comandou a administração federal e pretendeu ser hegemônico. Agora, o cacique petista movimenta-se intensamente para voltar ao poder, desde já prometendo desmontar tudo o que foi feito no atual governo para superar a herança maldita deixada pelo lulopetismo.

Cabe, portanto, aos partidos políticos minimamente comprometidos com o interesse público a responsabilidade de se unirem em torno de um candidato capaz de vencer as várias expressões do populismo, sejam quais forem as suas cores. Ainda que seja o mais daninho, o sr. Lula da Silva não é o único representante dessa aberração da política. Há, por exemplo, o iracundo Bolsonaro, que tenta suprir sua irrelevância na Câmara dos Deputados, sobejamente demonstrada há quase três décadas, com frases contundentes e grosserias. Até agora, a única posição efetivamente clara do deputado é, além da apologia da violência, seu desprezo pela democracia.

Como é lógico, o País merece mais. Por isso, Fernando Henrique lembra que candidato aparentemente bom, mas sem viabilidade política, não serve. “Se não vai para a academia. Quem entra na política sai da área de conforto. Tem que ter capacidade de juntar pessoas com opiniões diferentes”, disse ao Estado.

Ao falar das qualidades que tornam um candidato viável, Fernando Henrique referiu-se a uma carência muito sentida no mundo da política nos dias de hoje. “Por mais que exista comunicação entre as pessoas, é necessário que alguém lidere e seja capaz de emitir uma mensagem”, disse o ex-presidente.

Os partidos comprometidos com o interesse nacional precisam encontrar uma liderança capaz de se comunicar, de fato, com a população. “É necessário ter um novo sentimento de coesão nacional. Não dá para levar um País de 200 milhões de habitantes na base de fracionar e destilar uma situação de radicalização, como aparentemente está se formando”, disse Fernando Henrique.

A política impõe esse realismo. “Quem tiver uma mensagem mais abrangente tem mais chance”, avaliou Fernando Henrique. “As pessoas querem emprego, segurança – que é um tema que não estava na pauta eleitoral, mas hoje está – e as questões básicas. A mais básica da agenda do Estado é a educação. Não há emprego possível sem educação. Do ponto de vista da agenda das pessoas, há também o transporte e a saúde.”

Para o presidente de honra do PSDB, o principal critério para a definição do nome do candidato à Presidência da República não deve ser a sua filiação partidária, como se precisasse necessariamente emergir de seu partido. Nas atuais circunstâncias, a prioridade é a capacidade de reunir as forças políticas em torno de um projeto claro de governo. “Se houver alguém com mais capacidade de juntar, que prove essa capacidade e que tenha princípios próximos aos nossos, tem que apoiar essa pessoa”, disse. Mais explícito – e sensato –, impossível.

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