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O que Alckmin dirá na campanha

O governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB) terá de ser muito habilidoso para construir seu discurso de campanha. Ele não será candidato governista. Sua chegada ao comando do partido marcou a cordial saída da administração Michel Temer (PMDB). Então, não terá a estrutura do governo ao seu lado. Isso pode ser muito bom, considerada a impopularidade recorde do atual ocupante do Palácio do Planalto.

Entretanto, Alckmin tampouco será candidato de oposição. Não há um ato sequer do atual governo ao qual o PSDB tenha se contraposto. Nenhuma medida foi aprovada sem a adesão majoritária da legenda. Apoio que, mesmo com o fim da aliança, tem desdobramentos futuros. O partido está comprometido com a principal proposta que Temer ainda quer emplacar - a reforma da Previdência. Sendo assim, o que Alckmin dirá na campanha?

Não faz sentido defender o governo depois de tê-lo abandonado.

Mas, com que cara irá bater em Temer, depois de ter sido o fiador de sua chegada ao poder e de tudo que realizou até aqui?

Alckmin já não é alguém que desperte lá muitas emoções. Cujas posições sejam conhecidas pela firmeza, pelo caráter incisivo. Ficou conhecido como picolé de chuchu - a coisa mais sem gosto já concebida. No cenário atual, o problema se agrava.

A CONVENIÊNCIA DO “OLHAR PRA FRENTE”

Não é difícil projetar como ele deverá se posicionar: tentará fazer campanha “olhando para frente”. Apontando ideias para o futuro do Brasil. Conveniente para o candidato, mas não dá para fazer de conta que entrou ontem na cena política. Há de se prestar contas das posições assumidas no turbilhão político que o Brasil atravessa.

O PREÇO DA FALTA DE CLAREZA

Ambiguidade costuma ser fatal em campanha. Eleitor gosta de clareza. Quando a conversa se torna sinuosa, a população percebe.

A postura vacilante transformou Marina Silva (Rede) em alvo fácil dos ataques petistas em 2014. Em 2002, José Serra (PSDB) tentou fazer uma campanha de governismo envergonhado, escondendo Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Em 2004, em Fortaleza, Aloísio Carvalho (PMDB) foi lançado candidato por Juraci Magalhães e tentou o meio termo. “Foi bom até aqui, mas Fortaleza quer prosseguir”, era o mote da campanha.

Candidato de governo impopular normalmente tenta se desvincular do que é ruim, enquanto se aproveita do que é bom. Não há muita escapatória. Porém, se o eleitor quiser mudança, normalmente procura isso em candidato de oposição mesmo. Estou para ver governista que se elegeu com discurso de transformação.

O mesmo ocorre quando o governo de plantão é bem avaliado e os adversários falam que vão manter as políticas. Se é para ficar como está, o mais fácil é o eleitor votar na situação. Serra foi em 2010, de novo, exemplo dessa estratégia ambígua. Ele, que não havia defendido o governo FHC oito anos antes, tentou se apresentar como alguém que manteria políticas do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No fim das contas, deu Dilma Rousseff (PT).

Quando o governo é impopular, é improvável que o candidato de situação se saia bem, a não ser que use a campanha para tentar melhorar a imagem da administração que o apoia. Aproveitar o horário eleitoral para mostrar coisas que a população não percebe. Sem isso, o eleitor busca mudança — e faz isso olhando para a oposição.

Rovena Rosa/Agência Brasil
Rovena Rosa/Agência Brasil

O LUSCO-FUSCO QUE PODE SER FATAL

Alckmin está no meio do caminho. Não é o aliado com visão crítica, nem o opositor que quer manter o que funciona. É o “independente”.

Ex-apoiador que rompeu, mas não crítica. Vota nos projetos, mas não está na base de sustentação. Essa coisa nem lá nem cá não deu certo até hoje. O eleitor gosta de clareza, de saber de que lado o candidato está. Sem isso, não há nem militância que consiga se engajar. E o tom dos debates virtuais, sobretudo, de hoje em dia mostram o quanto não há margem para meios tons.

Pode ser que Alckmin contrarie tudo isso e seja eleito com essa postura. Será a quebra de um paradigma.Ou, quem sabe, o PSDB consiga sair da ambiguidade e encontra uma retórica. Caso contrário, corre risco de fazer a candidatura naufragar na própria falta de definição e clareza nas posições. ERICO FIRMO / OPOVO

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