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Virada dá a Lula lugar inédito na História do Brasil

Por Editorial / o globo

 

Em virada surpreendente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno por uma diferença de 3,6 pontos percentuais (51,8% a 48,2%), ou 4,4 milhões de votos, mais que o dobro da diferença sobre Jair Bolsonaro em 2022 — e governará o país pelo quarto mandato. No primeiro turno, Lula fora derrotado por 2,2 milhões de votos. Em três semanas, numa reação determinada, tida como improvável depois da onda bolsonarista que varreu o país em 4 de outubro, reverteu a vantagem de Flávio, fato inédito em quase quatro décadas de eleições presidenciais. Seu lugar na História da República estará garantido como o líder brasileiro a ficar mais tempo no poder pelo voto popular.

 

A queda na abstenção desempenhou papel fundamental para a vitória de Lula. Eleitores que não compareceram no primeiro turno decidiram votar no segundo, ampliando suas chances num pleito equilibrado. A abstenção ficou em 19,2%, inferior à do primeiro turno, 21,1%. No Nordeste, onde Lula historicamente obtém desempenho melhor, ela caiu de 18,4% para 16,4%. No Sudeste, de 22,7% para 20,2%.

 

Não foi uma vitória sem transtornos. Foi lamentável a falta de ônibus, relatada por eleitores em diversos estados. O transporte gratuito no dia do pleito é um direito do eleitor. A campanha de Lula acionou a Justiça Eleitoral pedindo extensão da votação, que se encerraria às 17h. No meio da tarde, a campanha de Flávio também solicitou prorrogação, em razão das chuvas no Sul. Mas a Justiça foi lenta. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, não tomou decisão até o fechamento das urnas. Pouco depois das 17h, com algumas já fechadas, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), prorrogou a votação até as 19h. O transtorno poderia ter sido evitado se autoridades agissem com maior presteza. As suspeitas de crime eleitoral precisam ser investigadas com rigor, e os eventuais responsáveis punidos, mas não prejudicaram a apuração final, como mostram os números.

 

E nenhum transtorno deve servir de pretexto para questionar o resultado. A eleição acabou, e a voz das urnas precisa ser respeitada. Depois da derrota, Flávio qualificou o resultado de “inaceitável” e insinuou que não aceitaria a prorrogação do horário, solicitada pelo seu próprio partido. Ora, ele obteve desempenho notável e deve entender que derrotas fazem parte da democracia. Espera-se que reaja de forma serena e respeite a escolha dos brasileiros. Quanto a Lula, seus desafios no próximo governo serão proporcionais ao feito histórico.

 

O mais evidente será governar com um Parlamento hostil. O Congresso que emergiu das urnas tem perfil nitidamente conservador. Com 121 deputados e 28 senadores, o PL de Flávio será o maior partido nas duas Casas do Parlamento, com musculatura suficiente para atrapalhar qualquer iniciativa de Lula. Lideranças centristas aliadas do PT no atual mandato perderam espaço ou foram derrotadas nas urnas. Será preciso maturidade de todos para deixar de lado desavenças eleitorais improdutivas e trabalhar pelo Brasil.

 

É natural que, numa disputa eleitoral, o discurso por vezes agressivo deixe feridas. Mas é preciso cicatrizá-las. Lula deve ter a compreensão de que precisa trabalhar para unir o país que se dividiu nas urnas, sem soberba nem revanchismo. “Este país tem uma Constituição. Ninguém é obrigado a gostar do presidente eleito, mas ele foi eleito para governar para todos, com base com o que está escrito na Constituição da relação com o Congresso”, afirmou em seu primeiro discurso depois de reeleito. Foi um sinal positivo. Será preciso que, desta vez, Lula honre suas palavras, em vez de repetir o que fez em 2022, quando foi eleito por uma frente ampla, mas, uma vez no governo, desprezou seus aliados — atitude que quase lhe custou a reeleição.

 

Na véspera de completar 81 anos, Lula não pode manchar sua biografia extraordinária com ressentimentos. Ele já comandou greves históricas em plena ditadura militar, participou da elaboração da Constituição de 1988, disputou a primeira eleição para presidente em 1989, voltou a concorrer e perdeu em 1994 e 1998, até ser eleito em 2002 e governar por dois mandatos. Depois de condenado e preso na Operação Lava-Jato, os processos foram anulados pela suspeição do juiz — e ele voltou ao poder em 2022. Tornou-se símbolo da democracia ao derrotar Jair Bolsonaro, condenado e hoje preso por tentativa de golpe de Estado.

 

 Mais uma vez, demonstrou força ao derrotar seu filho Flávio, contra as previsões. O revés no primeiro turno forçou mudanças na campanha petista, com ação intensa nas redes sociais, comícios e manifestações de rua. Ao mesmo tempo, os estrategistas corrigiram um dos maiores equívocos do primeiro turno, ao incentivar Lula a participar de debates. 

 

Ao longo da campanha, o confronto entre os dois foi marcado pela discussão superficial de questões essenciais. Nada é mais preocupante que a deterioração das contas públicas, agravada pela profusão de programas populistas no ano eleitoral, ao custo de centenas de bilhões de reais. Desde já, Lula precisa passar a tratar a questão fiscal com seriedade, e não com o desdém manifestado durante a campanha. O Estado brasileiro exige um ajuste urgente e robusto, que acabe com o déficit crônico e reduza a trajetória explosiva da dívida pública, enquanto o programa de governo petista sugere outro, tímido e gradual. Lula precisa enfrentar o problema com determinação.

 

Também tem o dever de assumir a liderança no enfrentamento às facções criminosas, milícias e gangues que infernizam o país. Aprovar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança e recriar o Ministério da Segurança Pública são iniciativas bem-vindas, mas não bastam. É fundamental que o governo atue de forma coordenada com os estados, de modo a somar esforços. A população brasileira não tem mais condição de conviver com tanta violência e criminalidade.

 

Por fim, ele não pode ignorar as denúncias que pesam sobre seu círculo mais próximo. Apurações em curso verificam se seu filho mais velho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, cometeu tráfico de influência para favorecer empresários em contratos com o governo. Outras suspeitas pesam sobre seu ex-chefe de gabinete, acusado pela Polícia Federal (PF) de receber repasse de uma lobista próxima a Lulinha. É fundamental que, no novo mandato, a PF continue a ter a independência necessária para apurar esses casos a fundo e, se comprovados crimes, que os responsáveis sejam julgados e punidos.

 

Lula acaba de receber do eleitor mais uma chance, muito provavelmente sua última. Mais uma vez, elegeu-se brandindo a bandeira da democracia. Por isso precisa, acima de tudo, entender o papel essencial do jornalismo em qualquer democracia que se preze. Deve ter claro que a imprensa profissional continuará vigilante sobre tudo o que fizer no poder. Crítica quando necessário, propositiva como sempre. É nossa missão — e continuaremos a cumpri-la em seu novo mandato.

 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursa após ser reeleito para o quarto mandatoO presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursa após ser reeleito para o quarto mandato — Foto: NELSON ALMEIDA/AFP

 

 

 

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