Campanha deixa de lado temas essenciais ao país
Por Editorial / O GLOBO
Com a campanha eleitoral perto do fim, fica claro que candidatos, marqueteiros e estrategistas deixaram fora da propaganda e do debate temas fundamentais para o próximo governo. Assuntos inexoráveis como a deterioração das contas da Previdência, a necessidade de um ajuste fiscal robusto e propostas concretas para combater o crime organizado para além do populismo penal foram omitidos ou abordados de forma superficial pelas campanhas do senador Flávio Bolsonaro (PL) e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Sucumbindo à profusão de ataques pessoais, ambos ficaram devendo ao eleitor.
É injustificável que um debate sério sobre a Previdência tenha passado em branco. A situação crítica das contas do INSS deveria ensejar preocupação. Enquanto a média anual de contribuintes subiu 1,2% entre 2015 e 2025, os beneficiários aumentaram 1,9% ao ano, como mostrou reportagem do GLOBO. Não é preciso muito esforço para perceber que os números não fecham, especialmente num cenário de envelhecimento populacional. Decisões recentes, como o pacote de bondades para microempreendedores individuais (MEIs) ou a aprovação de aposentadoria especial para agentes de saúde e endemias, agravarão o problema. “É necessário um debate mais profundo a respeito do financiamento da Previdência a médio e longo prazos”, diz o economista Rogério Nagamine.
Na proposta orçamentária para 2027 enviada ao Congresso, a despesa com benefícios foi projetada em R$ 1,4 trilhão e representa metade dos gastos primários do governo. É consenso que a reforma da Previdência de 2019 já não é suficiente para tornar o regime sustentável. Cedo ou tarde, outra reforma terá de entrar na pauta. Infelizmente, os candidatos fazem cara de paisagem diante de um desafio que só tende a piorar a cada dia que passa.
Não foi o único tema deixado de lado numa campanha de muitos ataques e poucas propostas. O ajuste fiscal também tem sido tratado com desdém. Não é verossímil que tanto Lula quanto Flávio ignorem a situação dramática das contas públicas. A questão deveria estar no centro das discussões sobre o próximo governo. Mas não. Além de não se comprometerem com medidas de austeridade, os dois não param de anunciar programas e iniciativas populistas que gerarão mais despesas, ampliando o rombo nas finanças públicas.
Mesmo a segurança, aparentemente tema de destaque nas campanhas, vem sendo tratada de forma rasa, com base em achismos e frases de efeito e sem o menor amparo em evidências e estudos científicos. Será preciso muito mais para livrar o país do domínio nefasto de organizações criminosas que controlam grandes extensões do território das cidades. É necessário apresentar planos e estratégias consistentes de reocupação e combate a tais grupos, para além do rigor penal e do aceno a categorias de agentes de segurança.
Políticos não gostam de tocar em temas sensíveis com medo de perder votos, mas há questões incontornáveis na agenda. Um dos dois postulantes governará o país a partir de 2027, e o eleitor tem o direito de saber o que planeja. Seria lamentável que as respostas viessem só depois da eleição. Os candidatos terão hoje, no debate da TV Globo, uma última chance para evitar ataques pueris, apresentar suas propostas e esclarecer a população sobre tudo o que deixaram de lado ao longo de semanas. Devem aproveitá-la.
A sede do INSS em Brasília — Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

