Infiltração do crime na política requer ação diligente
Por Editorial / O GLOBO
A prisão do deputado estadual eleito Márcio Canella (União-RJ) pela Polícia Federal (PF) reflete a maior atenção dos órgãos de segurança, do Ministério Público e do Judiciário para a infiltração crescente do crime organizado na política. Segundo mais votado para a Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), Canella é acusado de ser “articulador de alto escalão” de uma organização criminosa ligada ao Comando Vermelho (CV). O crime organizado busca obter proteção política por meio da ocupação de postos no Judiciário, no Legislativo e na própria polícia. A ação diligente das autoridades é essencial para preservar a integridade do Estado.
Não é a primeira detenção de Canella, ex-prefeito de Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Em julho, ele foi preso em flagrante pela PF por levar ilegalmente um fuzil no carro. Justificou-se dizendo que a arma era de um policial de sua escolta e depois foi solto. Desta vez, também foram presos com ele policiais, entre os quais o delegado Marcus Amim, ex-secretário da Polícia Civil e ex-presidente do Detran fluminense. Canella chegou a ser indicado a concorrer ao Senado por Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, mas sua candidatura foi descartada.
A prisão de um candidato que recebeu 197 mil votos expõe a dificuldade de resguardar as instituições do crime. A filtragem de candidatos ganhou eficácia com a aprovação da Lei da Ficha Limpa em 2010. Ela passou a barrar o registro de condenados em segunda instância na Justiça ou em inquéritos administrativos. Mas a barreira nem sempre foi eficaz, como demonstraram a prisão do ex-deputado TH Joias (eleito pelo MDB) e do ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar (União), ambos acusados de vínculos com o CV.
O risco crescente levou a Justiça Eleitoral a estabelecer em 2024 uma jurisprudência mais rígida, exigindo apenas “indícios robustos” de elos com o crime para vetar uma candidatura, e não mais condenação em segunda instância. A filtragem de nomes melhorou e por certo impediu muitos criminosos de tentar entrar na vida pública. Neste ano, 30 candidatos foram contestados pelo MP, e apenas um terço recebeu sinal verde para disputar as eleições, alguns ainda com recursos em andamento.
Três desses se elegeram. Um foi Canella. Outro foi Antonio Rueda (União-RJ), eleito deputado federal em dobradinha com Canella. Ambos escaparam da denúncia de terem se beneficiado de uma estrutura político-territorial criminosa com a participação de milícias na Baixada. O Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Rio não aceitou como provas postagens de suspeitos de vínculos com milícias em favor de Rueda e Canella. O terceiro foi Ney Santos, ex-prefeito de Embu das Artes, na Região Metropolitana de São Paulo, eleito deputado federal pelo Republicanos e investigado por suspeita de laços com o Primeiro Comando da Capital (PCC). Da carreira empresarial de Santos fazem parte uma rede de postos de abastecimento e uma transportadora, ambas em nome de “laranjas” do PCC, de acordo com investigações do MP. Seu mandato ainda depende de decisão do Tribunal Superior Eleitoral.
A prisão de Canella demonstra que as instituições dispõem de meios de evitar a contaminação pelo crime organizado. Os casos dos dois outros suspeitos devem ser tratados com prioridade. O voto popular não absolve ninguém dos crimes que tiver cometido.

