EUA e facções: nas cordas por Vorcaro, Flávio Bolsonaro pauta armadilha eleitoral para Lula
Flávio não perdeu tempo e, logo após o anúncio oficial pelo Departamento de Estado americano, divulgou nas redes sociais um vídeo no qual diz que em apenas uma visita à Casa Branca sem a condição de chefe de Estado “fez mais pelo Brasil e pela segurança dos brasileiros do que o PT e o Lula em seus 17 anos de mandato”.
Com isso, ganhou um fôlego após duas semanas de intenso desgaste político por conta do caso “Dark Horse” e a mal explicada negociação de R$ 134 milhões para o filme sobre Jair Bolsonaro com o dono do Banco Master.
Embora a proposta de classificar o PCC e o CV como organizações terroristas já venha de gestões anteriores e esteja sendo discutida pelo governo Trump desde o início de 2025, é impossível dissociar sua adoção neste momento à visita de Flávio, que passou os últimos três dias nos Estados Unidos.
Além de uma reunião rápida com o próprio Trump, ele esteve também com o secretário de Estado, Marco Rubio, e com o vice-presidente, JD Vance, e divulgou uma nota dizendo ter pedido aos dois a adoção da sanção contra as facções brasileiras.
Reposicionamento
Ao mesmo tempo em que o anúncio da decisão por Rubio poucas horas após o pré-candidato chegar ao Brasil sinaliza que, mais do que um trunfo da articulação bolsonarista junto a setores do governo Trump, a classificação do CV e do PCC como organizações criminosas fez parte de um movimento mais amplo de reposicionamento do governo americano em relação ao Brasil, de olho na eleição.
Já por parte do bolsonarismo o cálculo político é objetivo: segundo a última pesquisa Genial/Quaest, divulgada no dia 13 a violência é o tema que mais preocupa os eleitores. O problema foi citado por 31% dos entrevistados, bem à frente de assuntos como corrupção (18%), em alta por conta do escândalo do Banco Master, problemas sociais (15%), saúde e economia (12%) e educação (6%).
O tema da segurança pública é um calcanhar de Aquiles para a esquerda há anos, mas a direita já havia detectado fumaça na última ocasião em que o governo Lula se viu emparedado pelo tema, nos dias seguintes à operação nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte do Rio, que deixou 121 mortos.
Desde então, o Palácio do Planalto e o Ministério da Justiça aceleraram a tramitação de dois projetos-chave para garantir ao governo bandeiras a serem defendidas no período eleitoral: a Lei Antifacção, que endureceu o combate a grupos como o CV e o PCC, hoje na mira dos EUA, e a PEC da Segurança Pública, que repactua o papel dos entes federativos e amplia o poder da União na área.
Mesmo desidratadas pela oposição, o governo e o PT vinham trabalhando nas redes para consolidar a percepção de que a gestão de Lula fez seu trabalho. Acenando para um eventual quarto mandato, pleiteado pelo petista nas urnas em outubro, Lula voltou a falar nas últimas semanas em recriar o Ministério da Segurança Pública, promessa de campanha de 2022 vetada por Flávio Dino na transição e esquecida nos escaninhos do Planalto.
No último sábado, durante uma agenda na Fiocruz, no Rio de Janeiro, Lula deu como praticamente certo o desmembramento da pasta da Justiça. Ao lado do governador interino do Rio de Janeiro, Ricardo Couto, atacou o domínio de territórios do estado por facções e disse que o novo ministério seria criado após o Senado Federal aprovar a PEC, o que depende do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).
“Nós aprovamos a lei antifacção, a PEC do crime organizado, e estou esperando o Senado aprovar a PEC da segurança para criar o Ministério da Segurança Pública para a gente poder enfrentar de fato [o crime organizado]. Porque tem que definir qual é o papel da União. Pela Constituição de 1988, a União não tem muito papel na segurança”, afirmou o petista.
Mesmo que Alcolumbre supere a guerra fria com o presidente e agilize a aprovação da proposta de emenda à Constituição junto da apreciação do fim da escala 6x1, aprovado pela Câmara dos Deputados, a criação de um novo ministério soaria como uma resposta casuística à articulação de Flávio e à ordem de Trump. Será difícil convencer o eleitorado de que o presidente ressuscitou uma promessa de 2022 às vésperas do período eleitoral por qualquer outro motivo. A oposição, empoderada pelo êxito de Flávio em seu périplo pela Casa Branca, certamente acusará o governo de oportunismo, mesmo que a medida já estivesse em discussão antes do canetaço de Marco Rubio.
Efeito rebote
Por outro lado, a celebração bolsonarista em torno da ofensiva de Washington contra as facções brasileiras pode respingar na própria direita. Nos próximos dias, a Faria Lima e os grandes bancos estudarão minuciosamente como a nova política americana poderá impactar a economia brasileira e os negócios com o exterior. Um efeito rebote como no caso do tarifaço de Trump não pode ser descartado.
Na seara política e policial, por sua vez, o trunfo também pode se revelar uma faca de dois gumes. Inicialmente escolhido candidato da direita ao governo, o agora ex-presidente da Assembleia Legislativa Rodrigo Bacellar está preso suspeito de envolvimento com o Comando Vermelho. Na gestão de Cláudio Castro (PL), ex-secretários também são suspeitos de manter relação próxima com o CV, enquanto a PF investiga o loteamento de cargos na Secretaria de Educação para líderes de outra facção do estado.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o pré-candidato do PL ao Planalto, Flávio Bolsonaro — Foto: Brenno Carvalho/11-5-2026 e 19-5-2026

