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A eleição deste ano será pior

Mariliz Pereira Jorge / Jornalista e roteirista / FOLHA DE SP

 

 

A cegueira de parte do eleitorado de esquerda beira o patológico. Diante de pesquisas que desenham um pleito acirradíssimo, no qual Lula poderia sucumbir a qualquer nome que encarne o sentimento antilulista, a reação da militância é de comodismo.

É mais fácil gritar que os números são manipulados ou que existe um complô orquestrado por Redações sombrias do que encarar a realidade. Esse delírio coletivo, que trata estatísticas como heresia, é o primeiro passo para o abismo.

Ignoram, por amnésia seletiva ou pura conveniência, como os veículos de comunicação se comportaram em 2022. Ao contrário do fetiche conspiratório, a imprensa brasileira não é um monólito. O Estado de S. Paulo fustigou o populismo de ambos os lados, enquanto Folha e O Globo se apegaram à defesa das instituições. Pela primeira vez em quase uma década como colunista, declarei em coluna voto em Lula por um imperativo democrático, não por adesão à cartilha do partido.

Mas a memória curta é o combustível da soberba que alimenta discursos de "já ganhou" seis meses antes da eleição. Em 2022, analistas juravam que Bolsonaro seria varrido no primeiro turno após o desastre na gestão da Covid. Eleitores se esquecem que a vitória de Lula no segundo turno foi um milagre de rejeição ao adversário, não um altar de devoção ao petismo. O antibolsonarismo foi o pulmão daquele triunfo, mas hoje essa reserva de oxigênio está perigosamente baixa.

Em vez de mapear o descontentamento e conquistar os "nem-nem" (nem Lula, nem Bolsonaros), a esquerda ensimesmada prefere o isolamento do purismo moral. A arrogância com que tratam qualquer discordância e a antipatia despertada por pautas importantes, mas tratadas com radicalismo, são os maiores combustíveis de oposição gratuita.

Cada cancelamento de um possível aliado é um convite para o eleitor indeciso buscar abrigo no extremismo oposto. Se essa galera não descer do salto e entender que o jogo está empatado —e que o adversário não é Jair Bolsonaro—, o despertar virá acompanhado de uma baita ressaca.

LULA PENSATIVO

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