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Vírus é protagonista invisível da eleição municipal... - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/colunas/josias-de-souza/2020/11/15/virus-e-protagonista-invisivel-da-eleicao-municipal

Josias de Souza

Colunista do UOL

15/11/2020 03h34

coronavírus paira sobre as eleições deste domingo como um convite à reflexão. A disputa pelas prefeituras mudou de patamar. É como se a pandemia abrisse os olhos do eleitor para uma obviedade: o prefeito é algo mais do que um tapa-buracos ou um tocador de obras. Exige-se que seja um engenheiro social. A prioridade à vida e ao bem-estar das pessoas virou o principal ativo político da temporada.

A Covid-19 encostou nas urnas mais de 165 mil cadáveres. Prefeitos que vincularam à sua imagem um repertório de signos associados à saúde tornaram-se favoritos à reeleição. A atual disputa municipal, indicam as pesquisas, deve ser marcada pelo desejo do eleitorado de assegurar a continuidade de administrações que exibiram empenho no salvamento de vidas.

A crise sanitária produziu um inédito encurtamento da distância que costuma separar os interesses dos eleitores de classes sociais distintas. Vieram à tona as diferenças que igualam ricos e pobres no sistema de apartheid que caracteriza as cidades brasileiras. Há um quê de revolucionário na lógica inoculada pelo vírus no processo eleitoral de 2020.

O pedaço rico do eleitorado adquiriu uma compulsória consciência social. Noutros tempos, um eleitor endinheirado aplaudiria o prefeito de grande cidade que concentrasse o melhor de seus esforços na construção de obras que facilitassem a circulação de veículos particulares. Dava-se de ombros para uma evidência: quanto mais pistas houver, mais carros haverá. E quanto mais carros houver, mais pistas terão de ser abertas.

Hoje, esse mesmo eleitor é compelido a incluir no seu rol de preocupações os sistemas de ônibus, metrô e trens urbanos. Por quê? Os transportes coletivos levam trabalhadores domésticos e prestadores de serviços dos bairros periféricos para dentro dos lares, das academias, dos salões de beleza dos bairros elegantes. Apinhados e mal asseados, transportam o vírus junto com a mão de obra.

Suprema ironia: importado da Europa por viajantes privilegiados, o vírus propagou-se dos centros abastados para as periferias, iluminando aquilo que o ministro Paulo Guedess (Economia) chamou de "invisíveis." Em verdade, ninguém ignorava a existência de milhões de brasileiros desprotegidos. O que a epidemia ensinou foi outra coisa: o sistema de apartheid não funciona adequadamente.

Os ricos criam sistemas particulares. Aos "invisíveis", tudo o que é público: os transportes públicos, a escola pública, o sistema público de saúde... Com a pandemia, o Supremo Tribunal Federal atribuiu a prefeitos e governadores poderes constitucionais para adotar providências como isolamento social e restrições ao funcionamento de escolas e estabelecimentos comerciais.

Ficou entendido que, em matéria de saúde pública, os três entes da federação têm atribuições complementares. Com erros e acertos, os prefeitos exerceram o poder que a Constituição lhes atribui. Agora, têm mais visibilidade eleitoral —para se reeleger ou para eleger apadrinhados— aqueles que, na avaliação do eleitorado, erraram menos —sobretudo com os "invisíveis".

O vírus transformou as eleições municipais de 2020 numa rara oportunidade para que os eleitores reflitam sobre o tipo de sociedade que desejam. Diante da precariedade de hospitais públicos, transportes públicos e escolas públicas, as tentativas de nacionalizar a disputa naufragaram.

Candidatos à eleição presidencial de 2022 revelaram-se cabos eleitorais inúteis. O eleitor concentra-se na tarefa de julgar o administrador da sua cidade. Faz isso de forma mais criteriosa. Não julga apenas o cimento de obras prometidas, mas a sensibilidade social do prefeito.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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