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Prefeitos e nomes de centro saem na frente do bolsonarismo e do petismo Leia mais em: https://veja.abril.com.br/politica/prefeitos-e-nomes-de-centro-saem-na-frente-do-bolsonarismo-e-do-petismo/

A campanha presidencial de 2018 mostrou ao bolsonarismo e ao petismo que o ambiente de polarização política poderia se traduzir em um conveniente jogo de ganha-­ganha entre eles, pois deixou claro que  as suas maiores chances de vitória residem em ter um ao outro como adversários nas urnas.  Dois anos depois, no entanto, a cara e a coroa da mesma moeda chegam mais debilitadas às eleições municipais.  

 

O presidente Jair Bolsonaro, sem legenda desde que deixou o PSL, em 2019, não tem muitos candidatos para chamar de seu nas grandes capitais.  O PT esbar­ra na velha questão da falta de reformulação e da dificuldade de fazer alianças, ensaiando ir à luta com quadros desbotados.

 

Ambos terão pela frente candidatos competitivos que se posicionam no centro político e que aparecem bem colocados nas primeiras — e ainda precoces — pesquisas para as prefeituras das principais metrópoles.  Em uma eleição que pode tomar ares de referendo sobre a condução da pandemia, os moderados têm ainda um trunfo: os centristas favoritos já são prefeitos, com uma imensa visibilidade em meio à crise, caso de Bruno Covas (PSDB), em São Paulo, Alexandre Kalil (PSD), em Belo Horizonte, Nelson Marchezan Júnior (PSDB), em Porto Alegre, e Rafael Greca (DEM), em Curitiba.

 

A exceção é o Rio de Janeiro, onde Marcelo Crivella (Republicanos), talvez o único a ter apoio explícito do bolsonarismo nos grandes centros, está atrás do ex-prefeito Eduardo Paes (DEM).  O exemplo de governante que aumenta o seu capital político em meio às turbulências não é novo. 

Fernando Schüler, professor do Insper, lembra que a ampla exposição dos mandatários no combate à Covid-19 pode gerar o que ele chama de “efeito Ru­dolph Giuliani”, referência ao ex-prefeito de Nova York que ganhou popularidade em meio ao caos após os ataques terroristas de 2001. 

 

“A pandemia dá um efeito de dramaticidade à política, e o STF concedeu um poder muito amplo aos prefeitos na tomada de decisões durante o surto do vírus”, diz.  “Dessa forma, eles ganharam poder e relevância.”

O principal exemplo é o de Covas, cujo rosto ficou bem mais conhecido durante a crise sanitária e hoje é favorito à reeleição, com 23% de intenções de voto, segundo o levantamento mais recente do do Paraná Pesquisas, e 53% de popularidade.

 

À frente de São Paulo desde abril de 2018, quando João Doria (PSDB) deixou a prefeitura para se candidatar ao Palácio dos Bandeirantes,  Covas assumiu o cargo desconhecido por 70% dos paulistanos, conforme o Datafolha, e governou até o fim de 2019 às voltas com o baixo índice de exposição.

 

Segundo aliados, pesquisas internas mostram que essa situação já havia melhorado um pouco  depois que o tucano tornou pública sua luta contra um câncer, mas a popularidade aumentou quando ele passou a gerir a crise do coronavírus.  “A doença e a pandemia anteciparam a elevação do conhecimento sobre ele, que ocorreria naturalmente só mais próximo da campanha”, diz um auxiliar.

 

No entorno de Covas, a ordem é não falar em eleição até que a crise sanitária esteja controlada. A  situação da cidade melhorou ao longo das últimas semanas, mas ainda registra uma média preocupante de mais de 100 mortes por dia. 

o PT vê o seu candidato, Jilmar Tatto, largar com 2% das intenções de voto.  Por muito tempo, Lula tentou convencer o ex-­prefeito Fernando Haddad a entrar na disputa, mas sem sucesso.

 

Assim como o ex-governador Márcio França (PSB), também pré-candidato,  Tatto tentará desconstruir a popularidade recém-adquirida de Covas ao pintá-lo como o candidato de Doria.  França bateu o governador na capital no segundo turno de 2018. 

Também serão exploradas ações do tucano que não surtiram o efeito esperado na pandemia,  como as alterações confusas no rodízio de carros e a indefinição sobre a volta às aulas. “  Tudo isso passou uma sensação de inexperiência e despreparo”, avalia França. 

Esse é o dilema dos candidatos que estão no governo: fazer com que o impacto positivo no capital político provocado pela pandemia não se transforme em algo negativo até a eleição.  Se, por um lado, a visibilidade impulsionou a popularidade num primeiro momento, o aumento dos casos de Covid-19 com a saída da quarentena, as polêmicas em torno do abre e fecha das lojas e os inevitáveis prejuízos econômicos são ameaças que rondam quem está no poder.

 

É o caso do prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan, que lidera com 21%, também segundo o Paraná Pesquisas. 

Depois de determinar restrições a atividades comerciais, no início do mês, em meio à reescalada da Covid-19, o tucano passou a ser alvo de manifestações pela reabertura.  A última delas, na terça passada, teve a participação do vice-­prefeito, Gustavo Paim (PP), com quem Marchezan é rompido desde 2019. O ex-aliado, que chegou a discursar aos manifestantes diante do Paço Municipal, é pré-candidato.

 

“Neste momento começa uma demanda por populismo e cresce a pressão em cima da gente”, reconhece Marchezan.  Esse tipo de ataque mais duro e direto aos prefeitos, no entanto, não tem sido o tom geral.  Há um certo constrangimento em apontar o dedo para os rivais em um momento tão difícil. Acertar o ponto certo representa um desafio.  “O opositor tem de fazer observações comedidas e pontuais, de quem está cooperando, porque a pior percepção é a de haver oportunismo eleitoral neste momento”, diz Fernando Schüler.

 

Na Bahia, que virou exemplo de civilidade institucional entre rivais políticos colaborando na pandemia — o governador Rui Costa (PT) e o prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM) —, a aposta é que o  enfrentamento se dará mesmo mais à frente.

“Há prefeitos que até melhoraram em razão da visibilidade, mas depois ela passa e o eleitor vai julgar o passado também”,  avalia ACM Neto, que vê seu candidato, o vice-prefeito e ex-secretário municipal de Infraestrutura e Obras, Bruno Reis (DEM), aparecer com 31%.  “Ele foi lançado em janeiro e tem tido um crescimento orgânico desde antes do coronavírus”, diz ACM Neto.

 

A candidata de Rui Costa, a major Denice Santiago (PT), aparece com apenas 4%.  Popular na cidade por ter comandado a Ronda Maria da Penha de combate à violência contra a mulher, ela é até agora uma das poucas novidades do PT nas disputas nas grandes capitais.  Negra e moradora da periferia, Denice está sendo apresentada ao eleitorado por meio de lives com lideranças como Haddad e Dilma Rousseff.  Ela demonstra otimismo por nunca ter se aventurado na política e por apostar na desidratação do governismo conforme a crise econômica se agravar.  “Com a pandemia, as pessoas sentiram o agravamento das desigualdades”, discursa.

 

Embora o retrato atual das pesquisas sugira que não seja razoável apostar na surrada tática da polarização, alguns políticos acham que esse jogo pode mudar. “Vamos nacionalizar a disputa com o  Bolsonaro e vincular candidaturas adversárias a ele”, diz o deputado José Guimarães (CE), que coordena o núcleo eleitoral do PT e que foi inocentado no famigerado processo em que um ex-assessor foi  preso com dólares na cueca.  Para Guimarães, o partido tem condições de promover essa estratégia pelo número elevado de candidaturas que lançará neste ano (serão aproximadamente 1 600 para as prefeituras no Brasil).

 

A mando de Lula, a sigla se fechou para alianças em cidades estra­tégicas e terá 23 candidatos nas 26 capitais.  Dirigentes dizem que estão confiantes na recuperação da imagem do partido, mas as projeções não são lá muito animadoras. 

Lula considerava essencial ganhar em São Paulo e Belo Horizonte para o partido ter palanque em 2022.  O objetivo só será alcançado com uma virada improvável. Em Belo Horizonte, o prefeito Alexandre Kalil já superou a marca de 50% de intenções de votos nas pesquisas mais recentes.  Para enfrentá-lo, o PT escalou o ex-deputado Nilmário Miranda.

 

Enquanto o partido de Lula sonha em ganhar espaço direcionando suas baterias contra o Palácio do Planalto, há quem não desista de transformar o presidente em seu grande cabo eleitoral.  Único chefe do Executivo das grandes capitais que aparece mal colocado nas pesquisas, o carioca Marcelo Crivella aposta 100% no apoio da família Bolsonaro. 

Ele terá à disposição a estratégia digital que foi desenvolvida pelo núcleo bolsonarista para a eleição de 2018 e centrará fogo na desconstrução da imagem do favorito Eduardo Paes,  ligando o adversário a figuras como o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-­RJ), o ex-governador Sérgio Cabral e Lula.

 

Aliados e até adversários lembram que Crivella conseguiu alguma recuperação da popularidade em meio ao combate à Covid-19, mas Paes, que foi um excelente prefeito, diz que a gestão é uma “tragédia”.  “O fato de o governo não funcionar na pandemia é só mais um episódio na tragédia chamada Crivella”, repete.  O arco de alianças de Paes tem Avante, Democracia Cristã e PV, e diálogos em andamento com PSDB, PL e Cidadania.

 

Na política, ainda mais eleitoral, tudo pode mudar, claro. Mas a tarefa neste pleito municipal dos candidatos de esquerda e de direita, sobretudo os mais radicais, parece bastante complicada.

Publicado em VEJA de 22 de julho de 2020, edição nº 2696

 

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