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Eleições decisivas - ISTOÉ

As disputas municipais devem redesenhar o panorama político e definir até onde o radicalismo pode se manter no País

Eleições decisivas

EM CONSTRUÇÃO Começa agora a composição dos candidatos: ilustração simboliza a formatação do projeto democrático

Guilherme Sette / ISTOÉ

É comum encarar as eleições municipais como um teste para as forças políticas, verificando a adesão popular à situação ou oposição. Em 2016, por exemplo, os resultados catastróficos dos partidos de esquerda na corrida para as prefeituras, influenciados pelo processo de impeachment, já apontavam para a grande derrota sofrida para os cargos do executivo dois anos depois. Em 2020, não deve ser muito diferente.

O presidente Jair Bolsonaro terá dificuldade em garantir prefeituras importantes para nomes alinhados politicamente com ele. Além da popularidade baixa para o primeiro ano de mandato (30%, uma das piores entre os presidentes desde a abertura democrática), Bolsonaro precisa correr contra o tempo para conseguir registrar o seu partido recém-fundado, o Aliança pelo Brasil. Não deve conseguir. Portanto, precisará contar com nomes abrigados em outras legendas.

O ex-presidente Lula também deve ter dificuldades para voltar a fortalecer o PT. Para isso, tem insistido que seu partido lance candidatos próprios. Mas com isso afasta ainda mais as legendas de esquerda que estão cansadas de viver — e perecer — à sombra do seu partido. Os extremos não vão ter um caminho tranquilo. Candidatos abertamente alinhados a Bolsonaro ou Lula não terão vida fácil. O pleito vai definir até onde o radicalismo pode se manter no País.

Na cidade de São Paulo, os obstáculos do presidente estão bem representados. A eleição na capital paulista é crucial pela importância política da cidade, que representa o terceiro maior orçamento do País. O governador João Doria aposta na reeleição de Bruno Covas, que ganhou mais simpatia do eleitorado depois da revelação de sua doença.

Doria gostaria de vê-lo na cabeça de chapa, tendo como vice a deputada federal Joice Hasselmann (PSL), sua amiga. Mas ela rechaça essa articulação, por enquanto. Se antes o PSL tinha chances reais de vitória com ela, o racha no partido e a consequente perda do apoio de Bolsonaro diminuíram as suas chances.

Uma das mais recentes pesquisas, divulgada pela XP/Ipespe, aponta que o apresentador de TV José Luiz Datena, cortejado por vários partidos, está na frente com 22% das intenções de voto. Ele é o nome que mais agradaria Bolsonaro. No campo da esquerda, há poucos nomes expressivos.

O PT até considerou não lançar candidatos na cidade devido à baixa expectativa de vitória, já que o ex-prefeito Fernando Haddad não estaria disposto a disputar uma terceira eleição em seis anos. Há movimentações para a refiliação da ex-prefeita Marta Suplicy, que teria a simpatia de Lula, mas ela encontra resistências dentro da legenda por ter apoiado o impeachment de Dilma Rousseff.

Impasse e obstáculos

No Rio de Janeiro, o segundo maior colégio eleitoral do País, com aproximadamente cinco milhões de eleitores, Bolsonaro também deve ter dificuldades. O seu candidato natural seria Marcelo Crivella (Republicanos), mas pesquisas recentes mostram uma situação dramática para o atual prefeito, que está às voltas com o colapso das contas do município. Segundo o Datafolha, 72% consideram a atuação de Crivella “ruim” ou “péssima”. Ele tem apenas 9% das intenções de votos, perdendo para Eduardo Paes (DEM) e Marcelo Freixo (PSOL), com 22% e 18%, respectivamente. O PT gostaria de ver a deputada federal e ex-governadora Benedita da Silva na disputa, mas ela resiste. Outra disputa chave ocorre no Recife, com herdeiros de clãs políticos tradicionais: Marília Arraes, neta do ex-governador Miguel Arraes, e João Campos, filho do ex-governador Eduardo Campos. Mais uma mostra da dificuldade de união entre os partidos de esquerda.

Fundo eleitoral

O pleito acontecerá após a polêmica do “fundão” eleitoral. O governo previu no Orçamento enviado ao Congresso o montante de R$ 2 bilhões, um aumento razoável em relação ao R$ 1,7 bilhão gasto nas eleições para o Executivo e o Legislativo em 2018. Os líderes dos maiores partidos tentaram ampliar o valor para R$ 3,8 bilhões, mas a tentativa foi abortada após sua péssima repercussão. Se aprovada, o PT e o PSL, com as maiores bancadas, teriam direito a R$ 354 milhões a mais do que a previsão inicial — ainda assim, cada partido receberá pouco mais de R$ 200 milhões cada.

Essas eleições também serão as primeiras sem a possibilidade de coligação para as câmaras municipais. A ideia é fortalecer as legendas, impedindo que “puxadores de votos” criem distorções na representação dos vereadores. Outra mudança se refere à biometria. É intenção da Justiça Eleitoral que 4.577 municípios do País utilizem o sistema de identificação para a votação. Até o final de 2019, restam mais de oito milhões de eleitores a serem cadastrados.

 

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