O navio que apavora o Mediterrâneo - ISTOÉ
Já não importa muito se governos de países europeus acolhem ou não imigrantes. A Europa vai de braçadas em direção à extrema direita, e o risco maior, similar ao que precedeu o estouro da II Guerra Mundial, é que grupos radicais e fanáticos se organizam fortemente e agem à margem da política oficial de seus governos.
Nada mais sombrio, nesse cenário, do que a navegação pelo Mediterrâneo do navio C-Star, amedrontando a costa da Líbia. Nele há ativistas anti-imigração, grupos racistas da Alemanha, França e Itália, que, por iniciativa própria, estão dispostos a impedir por todos os meios que botes ou embarcações levem imigrantes ilegais à Europa.
Como se vê, é de fato a repetição do que houve, em terra, pouco antes da II Guerra, quando milícias privadas passaram a barrar a circulação de judeus. O C-Star navega com a bandeira da Mongólia, ganhou o mar sob o comando do grupo de extrema direita Geração Identitária, tem quarenta metros de comprimento e leva faixas com dizeres assustadores: “parem o tráfico de seres humanos”; “vocês não farão da Europa suas casas”.
A facção Identitária acusa as ONGs SOS Mediterrâneo e Médicos Sem Fronteiras, que se dedicam ao resgate e salvamento de refugiados, de incitarem os estrangeiros a seguirem para a Europa. A presença do C-Star viola frontalmente o direito internacional de ir e vir, sobretudo daqueles que foram eleitos como adversários, ou seja, os que partem do continente africano.
Alguma providência será tomada? Claro que um governo aqui, outro ali, protestará contra esse navio fantasma. Isso será o suficiente para retirá-lo da água? Não. Ao contrário, em breve, muito em breve, outros C-Star estarão apavorando os mares.

