Seca ameaça o São Francisco, maior rio do Grande Sertão

“O de-Janeiro, dali abaixo meia-légua, entra no São Francisco, bem reto ele vai, formam uma esquadria. Quem carece, passa o de-Janeiro em canoa – ele é estreito, não estende de largura as trinta braças. Quem quer bandear a cômodo o São Francisco, também principia ali a viagem. O porto tem de ser naquele ponto, mais alto, onde não dá febre de maresia. A descida do barranco é indo por a-pique, melhoramento não se pode pôr, porque a cheia vem e tudo escavaca. O São Francisco represa o de-Janeiro, alto em grosso, às vezes já em suas primeiras águas de novembro. Dezembro dando, é certo. Todo o tempo, as canoas ficam esperando, com as correntes presas na raiz descoberta dum pau d’óleo, que tem.”
Asegunda fase importante da vida do jagunço Riobaldo começou nas margens do Rio de Janeiro, afluente que deságua no São Francisco na altura do município de Três Marias, antiga Barreiro Grande. Ali ele chegou criança, com a mãe. Foi na Barra do Rio de Janeiro que conheceu Diadorim. Lá o jagunço também atravessou pela primeira vez o São Francisco, maior curso de água do Grande Sertão.
Muita coisa mudou desde a publicação do romance. Entre as cidades mineiras de Pirapora e Buritizeiro, o São Francisco ficou mais estreito e ganhou ilhas e áreas cobertas de vegetação. A água ficou mais turva. Mas não só ele se transformou. Ali perto, no distrito de Guaicuí, no vizinho Várzea da Palma, deságua assoreado o Rio das Velhas, que carrega a história da mineração da Vila Rica. Antes de cair sujo no São Francisco, o das Velhas recebe as águas do Córrego do Batistério, mais um entre tantos pequenos cursos quase secos atingidos pela irrigação irregular e pelo desmatamento em suas margens.
Três Marias cresceu com o represamento das águas do São Francisco, para gerar energia elétrica. De lá até a Barra do Rio de Janeiro são 55 km de estrada de chão, informam moradores. No caminho, um cheiro quase insuportável vem de uma barragem de dejetos de uma unidade metalúrgica da Votorantim Metais. Grupos de geraizeiros acusam a empresa de ter jogado rejeitos industriais diretamente no São Francisco durante anos. Também dizem que a barragem, construída para interromper a contaminação, não impede a infiltração do lençol freático. Por meio de sua assessoria, a empresa disse que “possui um sistema de gestão de barragens para garantir a segurança da sua operação”. “Todos os efluentes gerados pela unidade são monitorados e atendem os parâmetros legais, com relatórios enviados periodicamente ao órgão ambiental responsável. A unidade de Três Marias possui todos os licenciamentos necessários para sua operação.”
Uma floresta de eucaliptos margeia os dois lados da estrada. Um motorista que transporta madeira informa que Pedras não está longe, basta seguir a estrada. O povoado é formado por uma dúzia de casas em volta de uma igreja.
A estrada termina na sede antiga de uma fazenda, que fica na beira de um curso de água calma e parada. É o Rio de Janeiro. Até chegar à barra propriamente, o encontro do curso com o São Francisco, é preciso andar a pé por cerca de 1 km de capoeira e mata ciliar, habitadas por corujas, seriemas e gaviões-do-cerrado. Após atravessar um cipoal e um bambuzal na margem do Rio de Janeiro, ouve-se o barulho de um rio de correnteza. O São Francisco demonstra bem mais força. Ali, como Guimarães Rosa descreve no romance, o São Francisco entra no de Janeiro e o represa.
Riobaldo é convencido por Diadorim a atravessar o São Francisco numa canoa. “Tive medo. Sabe? Tudo foi isso: tive medo! Enxerguei os confins do rio, do outro lado. Longe, longe, com que prazo se ir até lá? Medo e vergonha”, relembrou. Nisso, Diadorim lhe diz: “Carece de ter coragem...”. Riobaldo, então, confessa, doído, que não sabia nadar. “O menino sorriu bonito. Afiançou: ‘Eu também não sei.’ Sereno, sereno. Eu vi o rio. Via os olhos dele, produziam uma luz.”
Na outra margem do Rio de Janeiro, homens pescam em canoas. Fazemos sinal para que nos atravessem. Com certa insistência e após mostrarmos que não somos gente do mal – em todo o Grande Sertão, as pessoas são desconfiadas, têm histórias ruins de bandidos que fogem da lei –, um deles nos leva até o outro lado. O canoeiro não liga o motor, pois explica que o nível do rio, o mesmo de-Janeiro que causava temor em Riobaldo, está muito baixo, a ponto de poder atravessá-lo a pé. Não há mais sinais de cágados nas pedras, como relatou o protagonista do romance.
Gilmar de Fátima Ferreira, de 48 anos, conta que nasceu e foi criado nas margens do afluente do São Francisco. Aos 19 anos, foi para Três Marias em busca de emprego. Trabalhou 26 anos na caldeira da Votorantim. Agora, aposentado por ter atuado em área insalubre, passa boa parte do tempo numa casa simples da beira do rio. Perto dele moram dois irmãos, Ném e Elisa.
Os rios que o esperavam eram outros. “No meu tempo de criança, a água do São Francisco no período da chuva chegava até o alto desse barranco (cerca de 2 metros). Mas houve muito desmatamento nas margens. As pessoas não respeitavam. Tinha embarcação que subia o rio para vender alimentos, carne seca e enlatados, o que não fosse perecível”, lembra. “O dourado gosta de água de correnteza, do São Francisco. Ele entrava no Rio de Janeiro, dava uma volta, mas gostava mesmo de água forte.”
Gilmar associa a redução drástica de água do São Francisco não apenas à seca mas ao desmatamento. “Houve assoreamento de boa parte do rio. Muitos cortaram a mata até a margem do São Francisco”, relata Gilmar. “Eu nunca vi o São Francisco e o Rio de Janeiro tão secos. Isso entristece a gente.”
Usina. Desde o início da seca, em 2014, ribeirinhos criticam a Usina Hidrelétrica de Três Marias de represar água em excesso. Construída nos anos 1960, a usina é operada pela Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig). A hidrelétrica tem capacidade de geração de 396 megawatts de energia. Hoje, porém, com a redução do nível da água, só produz 24 megawatts. O nível do reservatório é de 27%.
“É natural que a população ache que a Cemig prioriza o uso de água para energia”, afirma Ivan Sérgio Carneiro, engenheiro de Planejamento Energético da empresa. “Desde 2014, estamos vivendo anos de déficit hídrico, com 65% do volume de chuva abaixo do esperado. Este início de 2017 é o pior janeiro registrado nos últimos 80 anos.” Ivan conta que a usina represa 340 m³ de água por segundo e libera de volta para o rio 80 m³. Antes da estiagem, a liberação chegava a 200 m³.
O engenheiro ressalta que o represamento e a liberação de água para o trecho a jusante do rio são decididos agora por um fórum que reúne Agência Nacional de Águas (ANA), Ministério Público, empresas e governos estaduais. O Código da Água prioriza o consumo humano à geração de energia.
Despedida. Se Gilmar fez o caminho de volta para a margem do Rio de Janeiro, o jagunço Riobaldo deixou a localidade para nunca mais voltar. Ele tinha 13 ou 14 anos quando, num dezembro chuvoso, a mãe morreu. O jovem deixou o lugar apenas com uma rede, um santo de madeira, um caneco-de-asas pintado de flores, uma fivela grande, um cobertor de baeta e a muda de roupa. Ao narrar essa parte da sua vida, o jagunço disse que não tinha saudades. “Para trás, não há paz”, afirmou. O ESTADO DE SP

