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A esquerda brasileira precisa sair do discurso de defesa do PT e de seus governos

Em 1987 Sarney lotou o avião presidencial e rumou com seus ministros para Carajás. Foram fazer uma DR. Ao final do encontro, estava derrotada a heterodoxia que insistia em salvar o moribundo desenvolvimentismo. O clima político, paradoxalmente, era animador. A despeito da crise econômica e da figura démodé de Sarney, corria nas veias da sociedade a seiva das mudanças. Inaugurou-se ciclo democrático virtuoso, com a constituição cidadã, a realização regular de eleições livres, pluralidade partidária e políticas sociais universais.

Paralelamente ao programa de 1987, a superação da “Era Vargas”, deslanchava. Nos anos 1990, essas “reformas orientadas para o mercado”, apesar das dores do parto, foram majoritariamente apoiadas. O impedimento de Collor não interrompeu o processo. No mundo, as reformas liberais também bombavam. Na Europa os socialistas lideravam as mudanças. Tony Blair dizia que só os trabalhistas poderiam reformar o welfare state, afinal, eram os únicos que nele acreditavam.

O novo milênio até começou bem. Mas veio 2008, crise da desregulamentação capitalista, agravada por crise moral expressa em fraude, desonestidade malversação e enriquecimento ilícito. A solução, como sempre, viria do Estado. Mas, ao contrário de 1929 e do pós-guerra, veio contra Keynes, nacionalista e autoritário, contra a mundialização negociada. Trump representa bem isso.

A estratégia petista para enfrentar a marola mostrou-se equivocada. Ao contrário do esperado, enfraqueceu o Estado, fortaleceu o patrimonialismo, perdeu apoio político e, enfim, decretou a morte do novo ensaio desenvolvimentista. A repetição de “Carajás” foi a nomeação de Joaquim Levy. Embora a presidente esperasse um “ajuste” rápido que lhe permitisse dobrar a aposta, em seis meses seu segundo mandato começava a naufragar.

Veio um novo ciclo liberal. Isso, porém, sem o cenário propositivo dos anos 1990 e contaminado pela intolerância e pelo descrédito das instituições. A “Ponte para o futuro” se insere nesse contexto. E até parece que vai se sustentar. O que importa, entretanto, é que, a despeito do governante, a agenda liberal vem se consolidando. Foi ela vitoriosa nas eleições 2016. E se impõe a governadores e prefeitos.

A esquerda não pode ignorar essa agenda. Enquanto seu discurso continuar apenas se confundindo com a defesa do PT e de seus governos, ficará prisioneira do passado e desconectada da sociedade. Ela precisa, pra dizer o mínimo, reconhecer erros, pensar a reforma do Estado e discutir o combate à corrupção.

Os tucanos (de cabelos pretos) foram os maiores vitoriosos nas eleições 2016. Mas, diferentemente dos tucanos grisalhos dos anos 1990, não parecem capazes de garantir o roteiro da transição. Mas o farão se não houver alternativa.

Enfim, há 30 anos havia otimismo. E hoje, quem venceria uma eventual eleição em 2017? Ou mesmo em 2018?

*José Estevão M. Arcanjo

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Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará (UFC)

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