Nem didireita, nem disquerda (sic). Centro, faz favor!
Em 2022 celebraremos o bicentenário do Brasil como nação independente. Não é uma data para passar em branco. Eu diria que para o cidadão brasileiro é um evento mais relevante, pelo seu enorme significado cívico, do que outros megaeventos que andamos celebrando, tipo Copa 2014 e Olimpíada 2016.
Poderíamos dizer que o Brasil era, na entrada deste século, uma espécie de copo pela metade: meio cheio para os otimistas; meio vazio para os pessimistas. Mas depois do desastre da era Dilma Rousseff, não há mais dúvida: o copo não apenas esvaziou, mas quebrou.
Nosso copo Brasil quebrou com uma crise econômica nascida das traições políticas que sofremos por parte de quem nos prometia uma enorme mudança na forma de fazer política e que, no final das contas, mostrou-se mais interessado em um projeto de “manutenção de poder a qualquer custo”, incluindo rapinagem em causa pessoal própria, do que em proceder às reformas que levassem nosso país a um novo patamar como nação adulta.
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Em 2017, a crise política não vai amainar. O vendaval das investigações da Operação Lava Jato e, na sequência, as ações penais no Supremo Tribunal Federal (STF) vão sacudir de tal forma o establishment político que não deverá sobrar incólume um só nome; nem à esquerda, nem à direita, nem ao centro.
Nenhuma das figuras hoje com o rótulo de “político” carimbado na testa tem densidade positiva e baixa rejeição para enfrentar as eleições de 2018. Assim, ninguém na atual geração de políticos será páreo para um nome de fora da política. Mas seria esse outsider necessariamente um aventureiro sem nenhuma base de sustentação? Um salvador da pátria, demagogo e populista? Não, eu não apostaria nisso.
A eleição de São Paulo deixou como lição que um outsider com base de sustentação de centro é uma força irresistível nessa atual conjuntura. De certa forma, essa é a lição também da eleição municipal do Rio de Janeiro, só que pelo avesso. No Rio de Janeiro, o centro sem um nome outsider fragmentou-se. Aí aconteceu a tragédia política.
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Os números do primeiro turno do Rio evidenciaram a incapacidade do centro de se aglutinar. E no segundo turno sem o centro oferecendo candidatos, deu no que deu: em primeiro lugar ficou a soma de abstenção, nulos e brancos, com 47%, um recorde histórico nacional. Os 53% restantes foram distribuídos entre os dois candidatos que jamais teriam condições de ganhar se o centro estivesse representado.
Com base na consideração e nas lições aprendidas acima elencadas eu diria que o governante à frente de nosso país que sairá do processo eleitoral de 2018 e que deverá ser nosso presidente na comemoração do bicentenário deverá 1) ser um nome ainda desconhecido ou pelo menos um outsider da política tradicional e 2) contar com forças de sustentação política representativas de amplo espectro de centro-direita, excluída a extrema-direita.
Vamos ainda viver tempos de crise econômica até 2019 e, se tudo andar bem, uma retomada de crescimento econômico, mas ainda do tipo voo de galinha, isto é, tímido, errático e sem sustentação.
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A partir de 2019, o novo comando nacional a ser sacramentado nas urnas deverá ter respaldo político para fazer duras reformas necessárias que serão muito mais profundas do que as tentativas de ajuste fiscal esboçadas até aqui. Aí talvez o Brasil poderá pegar no tranco e voltar a se desenvolver econômica e socialmente de forma mais acelerada e sustentável.
Em 2022, vamos comemorar o bicentenário da Independência como uma nação adulta? Ou ainda seremos o Brasil adolescente, daqueles que volta e meia sentem uma vontade incontrolável de fazer besteira, direito esse que na juventude pode ter atenuantes, mas que na idade adulta é imperdoável? RICARDO NEVES/ ÉPOCA

