A tempestade econômica e política continuará – mas você tem como se abrigar
Muita gente – mas muita mesmo! – esperava que a situação econômica do Brasil fosse melhorar após a conclusão do processo de impeachment. Esqueça. Teve até economista conceituado lançando livro para avisar que a recuperação seria rápida e que oportunidades estariam brotando que nem cogumelo depois da chuva, algo tipo depois da tempestade vem a bonança. Ledo engano!
Nem a crise política terá desfecho rápido nem tampouco será rápida a recuperação da economia. Se você considera que o normal era, em termos psicológicos e otimismo, o clima festivo e confiante que vivemos no começo da década, quando contemplávamos a oportunidade de hospedar a Copa e a Olimpíada, esqueça. Não tem volta a esse normal. Pelo menos não antes de 2020, por aí.
A Lava Jato não vai parar. A delação da Odebrecht vai sacudir ainda mais o establishment político, muito mais do que os próprios políticos imaginam. O ano de 2017 continuará nervoso. Além das ações penais que vão decorrer das investigações e denúncias da Polícia Federal e do Ministério Público, das prisões que vão engrossar depois que o ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha finalmente foi grampeado, ainda há muita coisa a ser apurada.
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A onda da colaboração premiada vai em 2017 se tornar viral nas estatais. Vai ter muita gente honesta fazendo fila para salvar a pele de possíveis respingos das apurações sobre o propinoduto que abasteceu políticos e partidos no poder que vão avançar por dentro de Petrobras, BNDES, BB, Caixa, fundos de pensão dessas empresas e por aí vai.
O processo foi iniciado na semana passada com a colaboração premiada de um agente da Polícia Legislativa do Congresso, que se recusou a continuar seguindo o papel de guarda pretoriana de coronéis cangaceiros que estão dominando há quase três décadas a política brasileira. Engana-se quem pensa que funcionários do topo das estatais não sabiam o que estava acontecendo. Sabiam, e muita gente vai cantar o que foi obrigado a fazer ou os ilícitos que foi constrangido a assistir.
Se a tempestade não vai amainar, que fazer? Bom, se a gente riscar das possíveis alternativas hipóteses como emigração, hibernação ou suicídio, há um monte de iniciativas positivas a fazer, independentemente da passagem do furação na política que ainda vai dominar 2017, ano de crise, 2018, ano de eleição presidencial, e 2019, primeiro ano de novo governo.
Por exemplo? Em primeiro lugar, há uma atitude individual a restaurar: a autoconfiança, a consciência do que se deve e do que se pode ter e o prazer de estar vivo. Apesar dessa tormenta, a vida segue. Principalmente a vida privada, em uma dinâmica que independe da tempestade. Sério!
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Amizade, amor, filhos que nascem e crescem, pais que precisam ser cuidados na velhice, celebrações familiares que vão dos aniversários aos casamentos, dos dias dos Pais, das Mães, do Natal, do Carnaval, as férias. Nenhuma geração no Brasil conheceu o que é verdadeiramente um tempo de guerra bravo, como viveram dezenas de países desenvolvidos na primeira metade do século XX. Nunca tivemos uma vivência similar de guerra total para aprender que é preciso viver e celebrar a vida privada em qualquer tempo. Sem abrir mão da esperança de que tempos melhores virão.
E o que fazer nas empresas? Não dá para fazer o mesmo que na vida privada e tentar desconectar a crise de outros aspectos da vida? Não, não dá! Mas temos de ir além da crise nacional e entender que temos de aproveitar a “nossa” crise para fazer mudanças cruciais e estratégicas em nossas empresas.
Independentemente da crise política, existe uma mudança de era que atinge toda a humanidade. Passados quase 20 anos nos quais ainternet, a tecnologia de informação e as telecomunicaçõesimpactaram praticamente todas as atividades humanas, tanto produtivas quanto sociais, agora estamos entrando na fase acelerada da inteligência artificial.
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As empresas brasileiras precisam encarar a questão e entender a necessidade de reinventar a estrutura, os processos, os modelos de negócios e requalificar as pessoas para acertar o passo com a entrada na era da Economia do Conhecimento. Mas isso é papo para outra coluna. RICARDO NEVES / ÉPOCA

