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Da caça à fotografia: como os safáris na África trocaram a espingarda pelas teleobjetivas

Dois guepardos caminham por um matagal (Foto: © Haroldo Castro/Época)

Ver de perto grandes mamíferos africanos não é uma tarefa tão complicada. Muitas dessas viagens até entram na categoria luxo quando os pernoites acontecem em elegantes lodges espalhados pelo sul e leste da África. Mas esse turismo de natureza se desenvolveu apenas nos últimos 40 a 50 anos. Antes disso, nem pensar em encarar rinocerontes, leões e elefantes!

No século XIX, viajar pelas savanas e florestas africanas significava penetrar em um mundo desconhecido, cheio de perigos e desafios.Percorrer as entranhas do continente era tarefa apenas para exploradores corajosos ou cientistas destemidos. Nomes como do botânico americano William John Burchell, do ornitólogo inglês Thomas Ayres e do médico alemão Gustav Fischer ficaram gravados para sempre na África e algumas espécies de animais levam seus sobrenomes, como a zebra-de-burchell, a espécie das planícies.

Ao relatarem suas descobertas de volta à Europa, esses exploradores acabaram despertando a atenção de toda classe de curiosos, inclusive daqueles que se gabavam em perseguir e matar animais. Um dos caçadores da época foi o militar britânico William Cornwallis Harris, que viveu na África do Sul e na Etiópia entre 1836 e 1843. Sua reputação é ambígua: se Harris foi responsável por centenas de mortes de grandes mamíferos, ele também foi o primeiro ocidental a encontrar e identificar a palanca-negra, um belíssimo antílope de longos chifres curvos (Hippotragus niger),ajudando assim em sua preservação.

Uma palanca-negra ao amanhecer  (Foto: © Haroldo Castro/Época)

A partir do início do século passado, as incursões ao interior das províncias em busca de animais selvagens passaram a ser chamadas “safári”, palavra que significa jornada ou viagem em suaíli, idioma amplamente usado no leste do continente. Assim, safári se tornou sinônimo de caçada ou de uma expedição para encontrar e matar animais perigosos.

Dessa atividade nasceu outro termo amplamente usado no continente, os Big Five, ou os cinco grandes animais que representavam os maiores riscos para os caçadores. Entraram na lista dois poderosos felinos – o leão e o leopardo –, o maior mamífero terrestre – o elefante – e dois animais pesados, fortes e volumosos – o rinoceronte e o búfalo. Todos com um grande potencial de revidar o ataque humano caso os caçadores falhassem seu alvo na primeira tentativa.

O búfalo é um dos Big Five, um dos cinco animais mais perigosos para os caçadores  (Foto: © Haroldo Castro/Época)

Durante as últimas cinco décadas, os conceitos éticos foram se transformando. Buscar, encurralar e matar um animal selvagem deixou de ser um ato heroico e corajoso para ser considerado uma imbecilidade humana. Graças à beleza e à riqueza dos documentários de David Attenborough, da BBC, os novos amantes da natureza passaram a trocar suas espingardas por teleobjetivas e seus troféus de bichos empalhados por ampliações fotográficas.

Assim foi nascendo o que chamamos hoje de safári fotográfico, uma jornada em busca de vida selvagem onde a arma deixou de ser mortífera e passou a documentar um instante singular do encontro entre seres humanos e animais.

Outro termo importante no glossário africano é game drive, a saída em um veículo 4x4 para a observação dos animais. A expressão ainda usa a palavra game em seu contexto antigo de caça, significando qualquer animal que pode ser perseguido e alcançado. Mas, óbvio, as saídas de hoje buscam animais para ser fotografados,e não dizimados.

Em um instante típico de safári fotográfico, um gnu-azul cruza correndo à frente do veículo  (Foto: © Haroldo Castro/Época)

Existem milhares de lodges especializados em safáris fotográficos no sul e no leste da África. São essas hospedagens que recebem, alimentam, dão pernoite e oferecem o transporte aos visitantes que buscam a experiência única de contato com a vida selvagem.

Cada lodge possui permissão ou acordos para visitar territórios onde vivem os grandes mamíferos. Esses espaços podem ser parques nacionais de grande fama, como Kruger, na África do Sul; Etosha, na Namíbia; ou Serengeti, na Tanzânia. Mas também podem seráreas protegidas comunitárias, cujo manejo recai nas mãos dos nativos proprietários das terras. Ou ainda reservas particulares,onde empresas privadas decidiram montar seu negócio em suas próprias terras.

Cada reserva proporcionará uma experiência distinta ao visitante e não há safári fotográfico que possa ser considerado melhor do que outro. Tudo vai depender da sorte de encontrar os animais certos na hora certa. Mas é óbvio que parques nacionais renomados pela quantidade e diversidade de espécies recebem um grande fluxo de visitantes, bem superior que o das pequenas reservas comunitárias ou particulares. Na África do Sul, Kruger acolhe cerca de 1,7 milhão de visitantes anuais.

Por outro lado, tentar encontrar os famosos Big Five em áreas menores, como nas reservas particulares, sem precisar passar por eventuais engarrafamentos na hora de pico do game drive, pode ser uma opção conveniente. Por estar em uma área totalmente controlada, sem a intrusão de estranhos, os 4x4 das saídas fotográficas podem se espalhar pelo território e oferecer ao visitante uma experiência bem mais pessoal. 

Nas províncias de Limpopo e de Mpumalanga, no nordeste da África do Sul, concentram-se dezenas de reservas particulares que abrigam alguns dos melhores lodges do país, todos ostentando diversos prêmios internacionais. É o caso das reservas Sabi Sands, Mala Mala ou Thornybush, adjacentes ao Parque Nacional Kruger. Mas atenção: as diárias nos lodges exclusivíssimos, como Royal Malewane ou Singita, começam a partir de US$ 2 mil e as reservas devem ser feitas com um ano de antecedência.

É óbvio que, além de um punhado de lodges cinco estrelas de altíssimo padrão, existem dezenas de reservas particulares que recebem viajantes que não costumam chegar de helicóptero ou de jatinho. Thandeka, em Limpopo, é uma dessas. A decoração dos espaços é de extremo bom gosto, os quartos são arejados e as refeições são apetitosas. Mas o importante mesmo são os dois game drives que acontecem por dia, com saída às 6 da manhã e às 4 da tarde!

Os lodges de safári sempre são decorados com motivos africanos  (Foto: © Haroldo Castro/Época)

Em um ponto os antigos caçadores têm razão: avistar animais selvagens é um jogo, um game. Por mais especialista que seja o guia, encontrar animais no mato nem sempre é tarefa óbvia. Basta eles resolverem descansar em um lugar sem acesso ao 4x4 e não haverá como vê-los!

Depois de três dias em Thandeka, contamos 18 mamíferos. Dos Big Five, encontramos apenas três: leão, búfalo e rinoceronte. Já tínhamos sido avisados de que não há elefantes na reserva. E, quanto ao leopardo, ele resolveu se esconder.

Aos cinco animais mais perigosos para os caçadores, costumo adicionar mais cinco mamíferos renomados para estabelecer a lista de “mais procurados”. Um deles é o perigoso hipopótamo, animal que mais faz vítimas humanas na África. Também incluo o guepardo (o animal mais rápido do planeta), o cachorro-selvagem-africano (reconhecido por sua estratégia de caça), a elegante girafa(o mamífero de maior altura) e a espetacular zebra (o equídeo altamente fotogênico). Pronto, esses seriam os Big Ten!

Ao nascer do sol, uma girafa busca suas primeiras folhas matinais  (Foto: © Haroldo Castro/Época)

Não incluo nos Big Ten nenhum antílope. Mas algumas das mais de 90 espécies, todas pertencentes à família dos bovídeos, merecem uma menção: além da palanca-negra, vimos, em Thandeka, belos elandes (Taurotragus oryx), o maior dos antílopes.

O elande pode pesar até uma tonelada (Foto: © Haroldo Castro/Época)

Ainda que a prática da caça legal tenha diminuído bastante, um exemplo mórbido recente comoveu o mundo: a morte do famosoleão Cecil, assassinado em 1º de julho de 2015 pelo dentista Walter Palmer. O americano teria pago £ 45 mil (na época, US$ 70 mil ou R$ 220 mil) para disparar seu arco e flecha em direção ao felino. A morte causou uma forte reação na mídia internacional, com celebridades e autoridades pronunciando-se contra a caça.

Já a caça ilegal continua crescendo na África do Sul, e o principal alvo são os rinocerontes, por causa de seus chifres. O grama do pó do chifre chega a ser vendido no Vietnã a um preço mais alto que o grama de ouro ou de cocaína, graças a um mito de que o produto cura câncer e corta ressaca de bebedeiras. O negócio ilegal atraiu máfias que se organizaram para matar os animais na África e distribuir o tão desejado produto no Oriente.

Segundo a organização Save the Rhino, 1.338 rinocerontes-brancos e rinocerontes-negros foram assassinados no mundo em 2015. Desse total, 1.175 (87,8%) foram mortos na África do Sul. Um deles ocorreu há um ano em Thandeka.

Ossada e pele seca de um rinoceronte-branco morto em 2015 dentro da reserva Thandeka (Foto: © Haroldo Castro/Época)

Para que os rinocerontes-brancos que existem em Thandeka possam sobreviver, a solução é cortar os chifres dos animais antes que os caçadores ilegais invadam mais uma vez a reserva. Na foto abaixo, a fêmea já teve seu chifre cortado para evitar que ela seja morta. Os seus dois filhotes, à esquerda, ainda possuem seus pequenos chifres, mas antes do final de 2016 eles serão também cortados. A cena não é muito fotogênica, mas pode salvar a vida dos animais.

Uma família de rinocerontes-brancos na reserva Thandeka. A mãe, à direita, já com seu chifre cortado; os dois filhotes terão que perder seus chifres para que não percam a vida (Foto: © Haroldo Castro/Época)

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