Políticas antifumo devem mirar cigarros eletrônicos
De acordo com levantamentos recentes, o poder público brasileiro necessita redobrar a atenção sobre o tabagismo, principalmente com a expansão do uso de dispositivos eletrônicos para fumar (DEFs), conhecidos como cigarros eletrônicos ou vapes.
Estudo do A.C. Camargo, hospital particular paulista, mostra que 19% das pessoas entre 16 e 24 anos de idade são fumantes, taxa maior do que a média geral (de 17%) e do que as verificadas nos estratos de 25 a 40 anos (15%) e de 41 a 59 anos (17%).
Já a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, divulgada em março pelo IBGE, aponta que, apesar de a prevalência de adolescentes de 13 a 17 anos que experimentaram cigarro ter caído de 22,6% em 2019 para 18,5% em 2024, a dos que consumiram DEFs saltou de 16,8% para 29,6% no período.
A taxa de fumantes acima de 18 anos no país diminuiu de 15,7% em 2006, início da série histórica do Vigitel, do Ministério da Saúde, para 9,3% em 2023. Em 2024, contudo, subiu a 11,6%. Trata-se da maior elevação da série.
Quanto mais cedo a pessoa começa a fumar, mais difícil é abandonar o vício. Ademais, mais jovens fumantes representam maior impacto futuro no sistema de saúde. O cigarro está associado a doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes e hipertensão, e alguns tipos de câncer que impactam continuamente os gastos num SUS já pressionado pelo envelhecimento populacional.
Somos referência mundial no combate ao tabagismo. Segundo relatório da OMS de 2025, o Brasil está entre os 4 países, dentre 195 avaliados, que implantaram com alto nível de eficiência as medidas de contenção indicadas pela entidade: proteger a população da fumaça; elevar impostos; monitorar o consumo; oferecer tratamento para o vício; advertir sobre os perigos e proibir a publicidade.
O documento, porém, indica que o país deveria avançar no desenho da tributação, para tornar os produtos mais inacessíveis.
É preciso fortalecer essas ações com atenção nos DEFs e nos jovens, que tendem a achar que esses dispositivos não fazem mal à saúde. O controle da propaganda em TV, rádio e eventos, que ajudou na redução histórica do consumo, perde parcialmente sua força no ambiente informativo mais disperso das redes sociais.
A proibição dos DEFs pela Anvisa desde 2009 não tem impedido a expansão do consumo. Políticas interdisciplinares, que aliam saúde, educação e economia, já se mostraram relevantes no combate ao cigarro tradicional e devem ser aprimoradas no caso dos eletrônicos.

