Gonet ignora escândalo e age como advogado de defesa de Vorcaro e Moraes
Por Malu Gaspar / O GLOBO
Então ficamos combinados assim: ninguém viu as mensagens em que Daniel Vorcaro demonstra estar recebendo do ministro do Supremo Alexandre de Moraes informações sobre uma investigação sigilosa de que ele era o principal alvo. Também não quer dizer nada Vorcaro perguntar a Moraes se ele achava que já era o caso de “estar fora” na segunda-feira (dia em que o dono do Master foi preso). O contrato de R$ 131 milhões de reais fechado com o escritório da mulher do ministro e editado por ele próprio? Imagina, super normal isso.
Em oito páginas e uma canetada apresentadas com rapidez atípica para seus padrões, o procurador-geral da República, Paulo Gonet Branco, declarou que nenhuma das provas apresentadas no relatório de mais de 200 páginas da Polícia Federal vale para que se tome providências e se investigue o ministro Alexandre de Moraes.
Em seu despacho, Gonet afirma que a iniciativa de André Mendonça sofre de “dupla nulidade’. A primeira teria sido investigar o colega sem autorização do plenário. Para Mendonça, não houve investigação, e sim um pedido de informação preliminar. Além disso, Gonet afirma que não cabia a Mendonça pedir diligências, já que essa seria função proativa do MP e da PF. E assim encerrou o caso, sem dizer uma palavra sobre os espantosos fatos descritos no documento da Polícia Federal.
O fato de ele mesmo, Gonet, ter sido citado por Vorcaro de forma absolutamente imprópria para alguém na sua posição não o fez nem sequer fingir compostura, evitando assinar o despacho.
Para o PGR, tão cioso do devido processo legal e de sua autonomia investigativa, não há nada demais nas mensagens e uma ligação de vídeo em que ele manda dizer, por um advogado amigo de ambos, que está “com saudade”. Nas mesmas conversas, ele diz que quer “marcar de estar juntos” e confirma que iria ao evento patrocinado por Vorcaro em Londres: “Oba! Tomara que tenha charuto e Macallan”. Também pouco importa que seu filho, o advogado Pedro Gonet Branco, tenha pedido para ir a Londres em um dos aviões do dono do Master, segundo indicam as mensagens. Ou que Vorcaro tenha pedido para que ele tirasse da disputa para o conselho do MP um candidato incômodo (o tal indesejado realmente desistiu).
Ainda que se admita as nulidades apontadas por Gonet, em nenhum momento se questionou a veracidade dos fatos apresentados no relatório da PF. Caso suas preocupações fossem realmente republicanas, o mínimo que Gonet poderia fazer para se safar ele mesmo da acusação de conflito de interesses seria pedir ao presidente do STF, Edson Fachin, que abra uma investigação e a distribua a outro ministro, começando tudo de novo da maneira que ele considera certa.
Gonet, porém, não está preocupado com nada disso. Assinou ele mesmo o despacho em que ignora os episódios mais escandalosos do caso Master até hoje. Não escreveu nenhuma palavra sobre o que se leu e ouviu. Nenhuma menção à necessidade de que se apure se e quais crimes foram cometidos e até onde Moraes foi capaz de ir para salvar Vorcaro da bancarrota e da prisão. Gonet pelo jeito considera que tráfico de influência, advocacia administrativa, violação do sigilo funcional e eventualmente até corrupção só são crimes quando cometidos pelos inimigos de seus amigos. Uma coisa não se pode negar: o investimento do dono do Master não foi em vão. Como procurador da República, Gonet está se saindo como um ótimo advogado de defesa.
Ciro Soares e Paulo Gonet, em foto enviada a Vorcaro em março de 2025 — Foto: Reprodução

