A conta do atraso chegou
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Apesar das tentativas de negociação do governo brasileiro e da esperança de poucos, a conta do atraso chegou. A União Europeia deve suspender nos próximos dias as importações de proteínas animais do Brasil. O País teve tempo para se preparar, mas deixou para a última hora e agora tenta conseguir pela diplomacia o prazo que desperdiçou em casa.
A decisão decorre de regras europeias sobre o uso de antimicrobianos na produção animal, estabelecidas em 2023. O Brasil foi retirado da lista de fornecedores autorizados por não ter apresentado garantias suficientes. Só em julho deste ano o governo adotou novos procedimentos de controle e pediu uma transição que mantivesse as vendas durante as auditorias. O pedido foi negado.
Não faltou aviso. Como este jornal mostrou em julho, outros países, como Argentina, Uruguai e Paraguai, conheceram as mesmas normas e se movimentaram para adequar suas cadeias produtivas. Continuam habilitados a vender aos europeus. Aqui, gastou-se um tempo precioso discutindo se as exigências eram razoáveis ou protecionistas. A adequação, que deveria ter avançado enquanto essa discussão ocorria, ficou para depois.
Para frango e mel, a suspensão pode terminar em novembro. Com os bovinos, não há solução rápida. Um boi leva de 24 a 36 meses para completar seu ciclo, e o protocolo europeu precisa ser observado desde o nascimento. Cerca de 200 fazendas solicitaram adesão às novas regras, homologadas pelo Ministério da Agricultura apenas em julho, mas ainda estão na fase documental. Os primeiros animais com todo o ciclo submetido aos novos controles só estarão disponíveis em 2028.
O setor pode deixar de exportar US$ 1,8 bilhão por ano em carne bovina para a União Europeia. Dois meses sem vender frango ao bloco representariam outros US$ 243 milhões. Os europeus pagam pela carne bovina brasileira cerca de US$ 3 mil por tonelada acima da média do mercado internacional.
O governo ainda negocia e Lula chegou a escrever à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, pedindo a reinclusão do Brasil. Ainda que de forma tardia, negociar é papel do governo. A retomada das exportações de carne bovina dependerá agora do cumprimento de um protocolo que acompanha o animal desde o nascimento e exige anos, não meses. Produtores e exportadores pagarão por essa demora.
Há outros prazos correndo. Em dezembro, começam a valer novas exigências europeias contra o desmatamento, com regras de rastreabilidade para produtos importantes da pauta brasileira, entre eles carne bovina, soja e café. A União Europeia também já anunciou mudanças nos limites máximos de resíduos de agrotóxicos permitidos nos alimentos, tema que interessa diretamente ao agronegócio brasileiro.
O Brasil ainda tem tempo para participar dessas discussões e preparar sua produção para as novas exigências. Se vai fazê-lo, é outra história. No caso dos antimicrobianos, foram anos entre a publicação das regras europeias e a correria de última hora.

