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Na mira da PF, 'Dark Horse' tem registro concedido pela Ancine

Por Rafael Moraes Moura — Brasília / O GLOBO

 

A dois meses das eleições presidenciais, a Agência Nacional do Cinema (Ancine) aceitou no último dia 7 o registro de obra estrangeira de "Dark Horse", polêmico longa-metragem sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. Este é o primeiro passo para o lançamento do filme, que ainda precisa cumprir outras etapas burocráticas para ser exibido nos cinemas, como obter aval da Ancine para exploração comercial e ainda ganhar uma classificação indicativa do Ministério da Justiça.

 

Na mira do Supremo Tribunal Federal (STF), “Dark Horse” abriu uma crise na campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República após virem à tona mensagens do senador cobrando dinheiro do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, supostamente para o financiamento da produção.

 

Uma das linhas de investigação da Polícia Federal é saber se os milhões de reais despejados por Vorcaro foram usados para bancar as despesas do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) durante autoexílio nos Estados Unidos.

 

Em 22 de junho, a Europa Filmes apresentou o pedido de Registro de Obra Estrangeira (ROE) para “Dark Horse”, já esclarecendo, portanto, que não se trata de um filme nacional. A notícia veio à tona após uma proposta para lançar o filme no Brasil ter sido recusada pela Paris Filmes, uma das maiores distribuidoras nacionais, com um catálogo que inclui as franquias “Crepúsculo” e “Jogos Vorazes”.

 

Conforme informou o blog, a Europa Filmes planeja um lançamento de grande porte para o filme sobre o atentado à faca contra Bolsonaro em 2018. A ideia é que "Dark Horse" seja exibido em pelo menos 650 salas – no patamar do fenômeno de bilheteria “Tropa de Elite 2” – e com cópias dubladas espalhadas por todo o país. Mas isso apenas depois das eleições, a partir de novembro.

 

Agora, a distribuidora de "Dark Horse" vai atrás do Certificado de Registro de Título (CRT), documento emitido pela própria Ancine que dá aval à comercialização de uma obra audiovisual no Brasil. A Ancine é responsável pela regulação e fiscalização do mercado audiovisual brasileiro e, por isso mesmo, desempenha um papel-chave ao autorizar o lançamento de um filme no circuito nacional.

 

De acordo com a agência, para a emissão do CRT, "deve ser demonstrada a detenção dos direitos de exploração comercial da obra no Brasil e para o segmento pretendido, mediante a apresentação do contrato de cessão, licenciamento ou transferência desses direitos". Em média, essa segunda etapa dura 30 dias.

 

PF cobrou informações

Conforme informou o blog, a Polícia Federal deu um prazo de 10 dias para a Ancine apresentar informações sobre "Dark Horse".No ofício assinado na última terça-feira (18), a PF pediu informações sobre o registro de “Dark Horse”, além de “comunicação de produção, certificação ou qualquer outro procedimento administrativo relacionado à obra cinematográfica”.

 

Outro ponto que a PF quer elucidar é quais são as pessoas físicas e jurídicas vinculadas ao filme, além de produtores, coprodutores, distribuidoras, representantes legais e demais participantes do projeto que constam no banco de dados da Ancine.

 

A PF também quer que a Ancine esclareça se o filme recebeu incentivos fiscais, recursos públicos federais ou “quaisquer benefícios vinculados às políticas públicas de financiamento do setor”.

 

Filmagem irregular

Em 28 de julho, a Ancine abriu um processo administrativo e autuou a produtora Go Up Entertainment por irregularidades na gravação de "Dark Horse", o que deve constar na resposta que está sendo elaborada para a PF. O auto de infração, emitido pela Superintendência de Fiscalização e Combate à Pirataria, informa a conduta que levou à intervenção da agência: “produzir no Brasil a obra cinematográfica estrangeira DARK HORSE sem comunicar o fato à ANCINE.”

 

Segundo as regras da agência, a filmagem de uma produção internacional no Brasil deve ser feita sob a responsabilidade de empresa registrada na própria Ancine, que além de comunicar sobre a obra tem que apresentar uma série de documentos, como cópia do contrato, plano de filmagem e passaporte de cada profissional estrangeiro contratado. Nada disso, no entanto, foi feito pela produtora no caso de “Dark Horse”. Na prática, com a autuação da Go Up, a Ancine sinaliza a aplicação futura de uma multa que varia entre R$ 2 mil e R$ 100 mil.

 

Proprietária da Go Up Entertainment, a jornalista Karina Ferreira da Gama nunca lançou nenhum filme no Brasil. Além da Go Up, as outras duas empresas que constam no sistema da Ancine no nome de Karina – a Go7 Assessoria e a ONG Instituto Conhecer Brasil – também nunca registraram nem lançaram nenhuma produção em território nacional, seja em cinema, TV aberta ou fechada.

 

Núcleo duro da campanha de Flávio Bolsonaro já viu o filme

Segundo a equipe da coluna apurou, integrantes do núcleo duro da campanha de Flávio fizeram questão de assistir a “Dark Horse” antes da estreia nos cinemas para avaliar os riscos de judicialização e de eventuais novos desgastes, já que o filme virou foco de crise no clã Bolsonaro, respingando nas intenções de voto.

Após conferir o filme, a avaliação do QG da campanha de Flávio é a de que “Dark Horse” está mais para um thriller policial sobre a facada em Jair Bolsonaro em 2018 do que para uma cinebiografia propriamente dita. O personagem de Flávio tem participação discreta na trama, o que na tese de seus assessores deveria esvaziar os argumentos da campanha lulista de que o filme pode ser usado para promover a sua candidatura.

 

O filme recria cenas como um debate presidencial, mas sem usar os nomes dos adversários que enfrentaram Bolsonaro naquele pleito. O autor do atentado em Juiz de Fora (MG) é retratado como um militante de esquerda, mas não se chama Adélio Bispo.

 

Em outra cena, os personagens de Michelle, Flávio e Eduardo Bolsonaro conversam com o “doutor Tavares” nos corredores de um hospital após o atentado. “Deus está com ele, doutor”, afirma Michelle ao médico.

 

Um rascunho do roteiro explora a relação de Bolsonaro e Michelle, com cenas do casamento dos dois, o parto da filha Laura e o apoio da mulher durante a campanha eleitoral de 2018. “As coisas que dizem sobre você... Isso me assusta. Estão tentando provocar alguém para te machucar”, afirma a personagem da ex-primeira-dama, em tom premonitório. “Nossa filha precisa de você. Eu preciso de você.”

O elenco de "Dark Horse" é predominantemente estrangeiro, capitaneado pelo ator Jim Caviezel, célebre por interpretar Jesus Cristo em “A paixão de Cristo” e estrelar “O conde de Monte Cristo”. Já Michelle Bolsonaro é vivida por Camille Guaty, que já fez participação no seriado "The Good Doctor: O bom doutor”. Os diálogos são em inglês, em uma estratégia para ampliar as chances comerciais do filme no exterior.

 

Três cenários

Em meio à polarização política que pode invadir os cinemas, o diretor-geral da Europa Filmes, Wilson Feitosa, traça três cenários possíveis para a performance comercial de “Dark Horse”, que vai ser lançado no Brasil com o mesmo título original em inglês. O filme tem 100 minutos de duração, incluindo os créditos finais.

 

Na pessimista, o filme sobre Bolsonaro repete o fraco desempenho de “Lula, o Filho do Brasil” e atrai 800 mil espectadores. Na realista, faz entre 1,5 milhão e 2 milhões de espectadores. Na otimista, supera os 2 milhões – um patamar alcançado por poucos filmes nacionais lançados no pós-pandemia, especialmente os voltados para o público adulto.

 

É uma meta ambiciosa. Para efeito de comparação, “O agente secreto” atraiu 2,4 milhões de espectadores ao longo de quatro meses em cartaz, turbinado pelo mar de premiações e as quatro indicações ao Oscar – algo que “Dark Horse” não deve ter a seu favor, como admite o próprio Feitosa.

 

“Não é filme que vai ser indicado para o Oscar, não vai concorrer para indicação, mas tem esse selo hollywoodiano de qualidade”, afirma Feitosa, que tem no currículo o lançamento de produções nacionais como “O menino maluquinho” e “Lula, o filho do Brasil”, além de sucessos americanos, como o terror “A bruxa de Blair”.

 

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