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Brincando com fogo na Cisjordânia

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Em Qusra, na Cisjordânia, duas famílias palestinas passaram dias sitiadas em suas casas por colonos israelenses. Pedras foram atiradas, propriedades destruídas e até uma ambulância foi bloqueada. O Exército interveio, mas os agressores permaneceram. A cena ocorre em meio a uma onda de violência recorde – e a pouco mais de dois meses da eleição possivelmente mais importante de Israel em décadas.

 

Segundo a ONU, mais de 1.400 ataques de colonos ao longo deste ano causaram vítimas ou danos materiais, e 18 palestinos foram mortos até o fim de julho – mais do que em todo o ano anterior. O establishment militar israelense sabe aonde essa escalada pode levar. Centenas de veteranos das Forças Armadas e dos serviços de segurança alertam que o terrorismo judaico pode incendiar a Cisjordânia e ameaçar a própria segurança de Israel.

 

A “dificuldade” para contê-lo não convence como explicação. O ministro da Defesa, Israel Katz, suspendeu o uso da detenção administrativa contra extremistas, um dos instrumentos de que as autoridades dispunham para conter suspeitos de terrorismo. O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, promove assentamentos e postos avançados. A polícia está sob a pasta de Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional. Ambos, Smotrich e Ben-Gvir, pertencem aos partidos fundamentalistas dos quais Benjamin Netanyahu depende para governar.

 

Isso não torna todo o Estado israelense cúmplice. Comandantes militares até tentam conter colonos. O presidente Isaac Herzog denunciou uma “onda de terrível violência” e antigos chefes do Mossad e do Exército acusam “descontrole” e “terrorismo”. Há uma disputa entre instituições encarregadas de preservar a lei e políticos que afrouxaram seus freios.

 

A violência impune humilha, expulsa famílias de suas terras e ensina palestinos que recorrer às autoridades pode ser inútil. Em julho, uma incursão de colonos em Tal terminou num confronto em que morreram quatro palestinos e dois israelenses. As versões divergem, e nenhum abuso de colonos absolve quem mata israelenses. Ainda assim, o mecanismo é previsível. Palestinos comuns podem ser empurrados para a violência; o Hamas procura capturar a revolta, e a repressão alimenta outra volta da engrenagem.

 

O calendário eleitoral torna essa irresponsabilidade mais inquietante. Israel votará em 27 de outubro. Netanyahu chega enfraquecido e dependente de Smotrich e Ben-Gvir. Analistas como Yossi Mekelberg, da Chatham House, advertem para o risco de que um primeiro-ministro politicamente acuado instrumentalize uma escalada para recriar um senso de emergência nacional.

 

Veteranos da segurança já alertam para uma terceira intifada. E talvez seja justamente isso o que Netanyahu quer. Ele depende dos políticos que agravam deliberadamente os riscos e tolera um ambiente em que radicais armados testam dia a dia até onde podem avançar. Se a Cisjordânia explodir, ele poderá explorar o confronto que seu governo ajudou a tornar mais provável.

 

Israel já tem inimigos suficientes dispostos a atear fogo à região. O país deveria arrancar os fósforos das mãos de seus próprios extremistas.

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