A oportunidade da Margem Equatorial
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
É evidentemente positivo o anúncio da Petrobras sobre o poço exploratório de Morpho, na costa do Amapá. Atestar a existência de hidrocarbonetos na região da Margem Equatorial representa uma injeção de esperança à sociedade sobre o futuro do País e, em especial, à Região Norte, e da própria Petrobras, que precisa repor reservas para sustentar sua produção ao longo da próxima década. O comunicado, no entanto, deve ser interpretado pelo que ele é, sem a euforia que tem pautado os políticos da região e a presidente da companhia, Magda Chambriard.
Em comunicados ao mercado, a escolha das palavras importa, e muito. O fato de a Petrobras ter identificado a “presença de hidrocarbonetos”, por exemplo, demonstra que a companhia, ao menos por enquanto, não é capaz de dizer se encontrou petróleo ou gás natural, tampouco tem informações sobre a quantidade ou a qualidade do material encontrado nesse poço. Por causa disso, ainda não é possível afirmar se a operação teria viabilidade econômico-financeira e comercial. Isso explica por que as ações da Petrobras pouco se mexeram no pregão de ontem, a despeito de ter sido o primeiro na Bolsa desde o anúncio.
Entre a descoberta de óleo no campo de Tupi, em julho de 2006, e a divulgação do volume de reservas, estimadas entre 5 e 8 bilhões de barris, se passou mais de um ano. Foi somente após a publicação do fato relevante, em 8 de novembro de 2007, que os papéis da companhia dispararam quase 15% na B3 e mais de 25% em Nova York. O primeiro óleo para teste só veio a ser produzido em 2008, e a declaração de comercialidade do campo saiu apenas em 2010.
No mundo político, no entanto, qualquer pingo é letra, ainda mais faltando apenas dois meses para as eleições. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não perdeu tempo e marcou uma visita a um navio-sonda que atuou na descoberta. Aproveitou, também, para convidar o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que se envolveu tanto com esse projeto que teria sido informado da descoberta por telefone pela própria presidente da Petrobras.
De fato, passou-se tempo demais entre o leilão dos blocos na Foz do Amazonas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP), em 2013, e a autorização dada pelo Ibama para a perfuração do primeiro poço pela Petrobras, no fim do ano passado. O mundo mudou, e a sociedade ficou mais sensível aos riscos socioambientais dessa atividade.
Tudo isso amplia a responsabilidade da Petrobras, bem como os custos de uma operação que precisará aliar segurança e lucratividade se os resultados forem mesmo positivos. A declaração de comercialidade, na melhor das hipóteses, sairá entre 2029 e 2031, segundo o ex-presidente da companhia Jean-Paul Prates. Em um cenário acelerado, a exemplo do que foi feito na Guiana, o primeiro óleo surgiria em 2033 ou 2034.
O entusiasmo dos políticos, portanto, não reflete a realidade dos prazos do setor petrolífero. Mas o País, por outro lado, terá tempo de sobra para se preparar para o caso de essa promessa de desenvolvimento se concretizar. E, desta vez, não podemos repetir os erros do passado.
Não é aceitável, por exemplo, que o Amapá desperdice recursos dos royalties que podem vir dessa atividade em projetos que nem de longe melhoraram a infraestrutura urbana e a qualidade de vida dos moradores, como vimos ocorrer em municípios fluminenses. Tampouco devemos resgatar políticas que privilegiem o conteúdo local a qualquer custo. Ao contrário. Em tempos de tantas incertezas, o País precisa se abrir a importações, investir em acordos e parcerias comerciais e preparar terreno para se inserir nas cadeias produtivas globais.
É essencial investir desde já em educação e qualificação profissional, sobretudo da população local, para que ela tenha condições de aproveitar as oportunidades de trabalho que poderão surgir nos próximos anos. Para o Brasil, esta pode ser a última chance de alçar o País ao grupo de economias emergentes que crescem de maneira acelerada e inclusiva. Que não percamos mais essa oportunidade.

