O milagre de Jaques Wagner
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Há milagres que a fé explica. Mas há outros que clamam por uma investigação mais mundana. A evolução patrimonial do senador Jaques Wagner (PT-BA), ex-líder do governo no Senado, é um desses casos que devem ser analisados sob as leis da Terra. Em apenas oito anos, o sr. Wagner mais que sextuplicou seu patrimônio. De acordo com as declarações prestadas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o senador baiano tinha R$ 3,3 milhões em bens em 2018. Agora, às vésperas de disputar a reeleição, ele informou ao TSE ter R$ 24,5 milhões – um crescimento de impressionantes 631%.
Reconheçamos de antemão que o sr. Wagner não é o único político a registrar aumento substancial de patrimônio entre as duas últimas eleições gerais – 2018 e 2022 – e a deste ano. Mas seu caso é digno de nota porque não há notícia de que ele tenha exercido outra atividade remunerada no período além do exercício do mandato parlamentar, pelo qual recebe R$ 46.366,19 mensais. Sem dúvida, é um salário generoso, mas insuficiente para justificar um salto patrimonial dessa magnitude.
A explicação oficial do senador baseia-se na venda de um terreno em Camaçari, vizinho, por mera coincidência, ao centro de treinamento que o Bahia Esporte Clube lá construiu – negociado por R$ 13,8 milhões com a SAF do próprio clube e com uma incorporadora. Em 2018, esse mesmo lote valia, na declaração de bens do sr. Wagner, R$ 28 mil. Que o terreno valorize é normal. Que valorize 49.185% em oito anos é um milagre que desafia até o Dicastério para as Causas dos Santos. Tanto é assim que, procurado pelo Estadão, o senador preferiu não se manifestar.
Some-se àquele negócio a venda, ao prefeito de Conceição do Coité, de um apartamento na Vitória, bairro nobre de Salvador, por R$ 10 milhões – seis vezes o valor do mesmo bem declarado ao TSE. Isso sem falar nos dólares e euros encontrados em endereços do senador durante uma recente operação da Polícia Federal (PF), que ele alega ser dinheiro de “diárias de viagem” não usado – por que não devolveu aos cofres públicos, é outro mistério. A PF apura se o senador baiano recebeu propina de um ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master para favorecer interesses do empresário no Senado.
A biografia de Wagner publicada no site do PT registra que o senador foi um sindicalista fundador do partido na Bahia, governador do Estado por dois mandatos e ministro em governos petistas, até ser eleito senador em 2018. Ou seja, é uma vida dedicada à política, um currículo que torna a riqueza do senador intrigante, para dizer o mínimo. Wagner nunca teve, fora da política, outra fonte de renda conhecida. Logo, se multiplicou o patrimônio em proporção que humilha alguns dos melhores fundos de investimento do País, foi na política que o fez.
O bloqueio de bens determinado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça e a suspensão da transferência do terreno em Camaçari pelo cartório responsável sugerem que há indícios de enriquecimento ilícito. Cabe unicamente a Jaques Wagner explicar como seu patrimônio se multiplicou por seis em tão pouco tempo. Enquanto essa explicação não vem, resta ao eleitor baiano decidir se acredita nesse tipo de milagre.

