O corte de juros subiu no telhado
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
As projeções para a inflação deste ano subiram pela 13.ª semana consecutiva e atingiram 5,11%, segundo a edição mais recente do Boletim Focus. A mediana das estimativas supera a meta e o limite de tolerância e afasta paulatinamente a chance de o Banco Central (BC) continuar a reduzir os juros nos próximos meses. Se há um mês o mercado projetava a Selic em 13% no fim deste ano, os analistas elevaram a previsão para 13,25% na semana passada e para 13,5% nesta semana.
Há cada vez menos motivos para imaginar que a inflação possa desacelerar nos próximos meses, mas a ficha do mercado parece ter caído apenas na semana passada. Diversas instituições revisaram suas estimativas para a taxa básica de juros, hoje em 14,5%, e passaram a acreditar que a Selic encerrará o ano em 14% ou até acima disso. Para a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), nos dias 16 e 17 de junho, as apostas, que até então se concentravam majoritariamente em mais um corte de 0,25 ponto porcentual, passaram a se dividir e incluir a possibilidade de manutenção da taxa.
Os problemas começaram com a guerra no Oriente Médio, no fim de fevereiro, e o consequente avanço nas cotações do barril do petróleo. O conflito segue sem perspectiva de acabar, bem como a retomada do tráfego no Estreito de Ormuz, uma das principais rotas mundiais de abastecimento da commodity. Na improvável hipótese de que um acordo entre Estados Unidos e Irã fosse anunciado hoje, os impactos do confronto nos preços de combustíveis e fertilizantes e nas cadeias produtivas levariam meses para serem revertidos.
O clima tampouco deve ajudar. A perspectiva de um super El Niño no segundo semestre pode causar secas severas, ondas de calor e temporais a depender da região do País, com impactos na safra agrícola e na produção de energia. Não à toa, o Banco Central incluiu perguntas sobre os efeitos do fenômeno climático na inflação no questionário pré-Copom enviado a analistas no início deste mês. O objetivo é saber se suas estimativas de inflação já consideram ou não esses problemas em potencial.
Não bastassem a guerra e o clima, o governo federal tem tudo a seu alcance para agravar um quadro que a reportagem do Estadão corretamente classificou de “tempestade quase perfeita”. A despeito do mercado de trabalho aquecido, com desemprego próximo das mínimas históricas e salários em elevação, e da inflação mais elevada no setor de serviços, o Executivo age como se o País estivesse em crise e não para de anunciar medidas para estimular a demanda e a economia.
Renúncias tributárias e subvenções para o diesel até teriam justificativa num país em que o transporte de cargas se dá majoritariamente por modal rodoviário, mas a inclusão da gasolina, do gás de cozinha e do querosene de aviação mostrou que a porteira de gastos tinha sido aberta. O anúncio da segunda etapa do Desenrola e a abertura de linhas de crédito subsidiadas para a compra de caminhões, automóveis e, em breve, motos evidenciou que as medidas visam a, basicamente, reverter o mau humor do brasileiro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva até outubro.
Tudo isso tem impacto na demanda e, consequentemente, na inflação e, por tabela, nas taxas de juros. O período do chamado defeso eleitoral, quando o governo fica impedido de anunciar novas medidas, começa apenas no dia 4 de julho e, até lá, a farra não deve acabar. É tempo mais que suficiente para que os estragos aumentem também no Congresso, onde tramitam o fim da escala 6x1, o aumento do teto do regime do Microempreendedor Individual (MEI) e a renegociação das dívidas rurais.
Mesmo com juros tão elevados há tanto tempo, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 1,1% no primeiro trimestre, ante os três últimos meses do ano passado, e 1,8%, em relação ao mesmo período de 2025. Até o dólar, que ajuda a conter a inflação no mercado interno, disparou na semana passada com a perspectiva de alta dos juros nos Estados Unidos. Fica cada vez mais difícil, para não dizer impossível, defender juros mais baixos nesse cenário – a não ser para um presidente em campanha pela reeleição.

