Protestos ampliam crise na Bolívia
Há um mês a Bolívia vive uma onda de protestos promovidos por sindicatos, camponeses e indígenas que agrava a pior crise econômica do país desde a década de 1980. As principais vias de acesso a La Paz foram interditadas por manifestantes e há mais de 40 pontos de bloqueio em estradas.
O resultado é escassez de alimentos, combustíveis e remédios —na quinta (28), centenas de profissionais da saúde protestaram contra a falta de insumos.
Os manifestantes exigem medidas contra o aumento do custo de vida, a reversão de medidas de austeridade fiscal implementadas pela gestão de Rodrigo Paz, maior representatividade das classes populares no governo e até a renúncia do presidente.
Paz assumiu o poder há apenas seis meses, interrompendo 20 anos de administrações do partido de esquerda Movimento ao Socialismo (MAS), do ex-presidente Evo Morales (2006-2019).
O mandatário herdou a crise econômica de seu antecessor, Luis Arce, que fora alvo de protestos capitaneados por Morales, com quem havia rompido. A atual situação da Bolívia é oriunda de um longo período de má gestão.
A partir de 2014, com o declínio da produção e das exportações de gás natural, o país começou a perder sua principal fonte de dólares. Mesmo assim, manteve o modelo de combustíveis subsidiados, iniciado em 2005 e preservado pelo MAS, além de alto gasto público e câmbio controlado.
As reservas em moeda forte chegaram perto do fim entre 2024 e 2025, dificultando a importação de combustíveis e insumos. A escassez alimentou filas e mercado paralelo; o déficit orçamentário aumentou; a inflação acumulada em 12 meses chegou a 14% em abril, depois de um pico de quase 25% em julho do ano passado.
Em resposta aos protestos, Paz trocou o ministro do Trabalho, criticado pelo sindicalismo, por um advogado de origem indígena e anunciou um corte de 50% nos salários do primeiro escalão, a começar pelo seu.
De mais alarmante, o governo revogou, na semana passada, uma legislação de 2020 que dificultava a declaração de estado de exceção e o emprego das Forças Armadas para conter manifestações. A mudança foi apoiada por governistas e opositores na Assembleia Nacional.
Trata-se de situação em que deterioração econômica e turbulência política se agravam mutuamente, agora com risco para a estabilidade institucional. No segundo país mais pobre do continente, atrás apenas da Venezuela, a democracia também vai mostrando fragilidades.

