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Queda na taxa de homicídios requer mais estudos

Por Editorial / O GLOBO

 

A nova edição do Atlas da Violência, elaborado por uma parceria do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, traz uma notícia aparentemente auspiciosa: pelo quinto ano consecutivo, caiu a taxa de homicídios. Os 42.590 registrados em 2024, ou 20,1 por 100 mil habitantes, representaram queda de 7,4% ante 2023 e de quase 16% ante 2020. É verdade que isso não se reflete na percepção da população, que, influenciada por outros crimes, tem na segurança pública sua maior preocupação. Mesmo assim, é um dado significativo.

As causas da queda são múltiplas, despertam controvérsia e ainda precisam ser estudadas em detalhes. Parte resulta de políticas locais bem-sucedidas na segurança. Há também o efeito positivo da demografia, pois a violência se concentra entre os jovens, e a população tem envelhecido. Houve ainda, nesse período, arrefecimento na guerra entre facções criminosas, portanto menos mortes violentas. Por fim, o dado pode mascarar deficiências na qualidade das estatísticas, e a queda pode ser menor — ou nem sequer existir.

 

Essa ilusão estatística é corroborada pelo crescimento dos “homicídios ocultos”, casos em que não se consegue identificar se a morte foi causada por acidente, suicídio ou assassinato — eles são classificados como mortes violentas por causa indeterminada. De 2023 para 2024, aumentaram 88,6%, de 3.755 para 7.083. Ao aplicar uma metodologia para separar os eventos com maior probabilidade de ter sido assassinatos, o Ipea eleva a taxa de homicídios de 20,1 para 23,3 por 100 mil habitantes, crescimento de quase 16% que praticamente anula a queda.

Em contraste, a distribuição geográfica fortalece a tese da influência da guerra de facções nos números. Há tendência à concentração regional da violência à medida que as organizações criminosas tentam conquistar novos territórios, sobretudo no Nordeste e no Norte. Nos estados do Sul e do Sudeste, ao contrário, têm avançado entendimentos entre as facções. Há apaziguamento relativo nos homicídios, mas isso não é necessariamente bom, pois se dá com grupos ainda mais fortes, que se aproveitam de outros crimes.

 

Em 2020, os cinco estados com mais homicídios contribuíam com 27% das mortes. No levantamento mais recente, respondem por 33%. Apenas 99 municípios (1,8% do total) foram palco de 43,4% dos crimes de morte. Em 2022, concentração semelhante era alcançada em 165 cidades. Das dez mais violentas, quatro estão no Ceará e seis na Bahia. No ranking das menos violentas, sete são de São Paulo, duas de Santa Catarina e uma do Paraná. A geografia da violência pode ser explicada, diz o pesquisador do Ipea Daniel Cerqueira, pela interiorização do crime e pelo surgimento de grupos locais sem organização comparável à das grandes facções, em geral de jovens que buscam se afirmar pela violência.

 

A análise atenta da pesquisa revela que os pesquisadores ainda têm muito trabalho a fazer para que a sociedade possa tirar as conclusões corretas dos números e adotar as políticas adequadas. Por ora, cabe ao Estado implementar ações mais eficazes de levantamento de dados, análise, planejamento e inteligência financeira, capazes de sufocar as organizações criminosas que respondem pela maior parte dos homicídios. Não será por meio de ações esporádicas para demonstrar força que o crime organizado será contido.

 

Policiais carregam corpo de suspeito morto durante operação na Ladeira dos Tabajaras, no RioPoliciais carregam corpo de suspeito morto durante operação na Ladeira dos Tabajaras, no Rio — Foto: Márcia Foletto/15/04/2025

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