TSE já proibiu exibição de filme sobre Bolsonaro durante eleições
Por Rafael Moraes Moura — Brasília / colunada gaspar
Cercado de polêmica por conta do financiamento de R$ 61 milhões do banqueiro Daniel Vorcaro, articulado pelo pré-candidato do PL à Presidência e senador Flávio Bolsonaro (RJ), o filme “Dark Horse”, sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro, pode enfrentar obstáculos jurídicos caso seja lançado em setembro, a um mês das eleições presidenciais. Isso porque o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já suspendeu o lançamento de um filme sobre Bolsonaro nas últimas eleições presidenciais – no caso o documentário “Quem mandou matar Jair Bolsonaro?”, da produtora de vídeos de direita Brasil Paralelo, que seria exibido às vésperas do segundo turno.
Na época, o TSE acolheu um pedido da coligação de Lula. O precedente pode ser usado agora para barrar a exibição de “Dark Horse” pelo menos até o fim da disputa eleitoral, em 25 de outubro. Esse risco já vem sendo considerado em reuniões fechadas por aliados do senador, que temem que a estréia do longa-metragem mais prejudique do que ajude a campanha à Presidência.
No caso do documentário, o TSE concluiu que era importante evitar que um “tema reiteradamente explorado pelo candidato em sua campanha receba exponencial alcance, sob a roupagem de documentário que foi objeto de estratégia publicitária custeada com substanciais recursos de pessoa jurídica”, conforme voto do ministro Benedito Gonçalves, relator do caso e de outras duas ações que levaram depois à inelegibilidade de Bolsonaro.
O filme só foi exibido depois das eleições. A diferença é que, no caso do documentário de 2022, Jair Bolsonaro era candidato à reeleição e protagonista do documentário sobre o atentado à faca em Juiz de Fora, enquanto agora quem vai disputar a corrida presidencial é o seu filho. “Dark Horse” (Azarão, em tradução livre) é protagonizado pelo ator norte-americano Jim Caviezel no papel do ex-presidente.
A ficha técnica no site IMDb, considerado a Bíblia dos cinéfilos, indica que foram escalados atores para os papéis do clã Bolsonaro, como Michelle, Carlos, Eduardo e o próprio Flávio, que será vivido pelo ator brasileiro Marcus Ornellas, mas ainda não sabe o espaço que cada um deles terá na trama.
Instrumento de propaganda
Entre aliados de Flávio, o temor é de que “Dark Horse” seja encarado pelo TSE como um instrumento de propaganda. E não só isso: que um eventual lançamento em setembro, conforme previsto, resgate na memória do eleitor a controvérsia envolvendo os diálogos trocados entre Vorcaro e Flávio Bolsonaro, que abalaram a pré-campanha bolsonarista e provocaram um tiroteio dentro do próprio campo da direita.
“Existe uma dúvida quanto ao lançamento nesse momento eleitoral, que poderia ser encarado pelo TSE como propaganda. Isso exige uma cautela jurídica necessária”, afirmou ao blog uma fonte que acompanha de perto as discussões nos bastidores.
Já um integrante da campanha ouvido em caráter reservado fez uma análise diametralmente oposta: defendeu ao blog a antecipação da estreia do filme, em uma tentativa de “reduzir danos” e tentar encerrar o assunto o quanto antes, justamente para virar a página dos áudios de Flávio com Vorcaro, se é que isso é possível.
Conforme informou o blog, os R$ 61 milhões que Vorcaro pagou para financiar o filme são equivalentes a 13 vezes o que o Banco Master tinha em caixa quando foi liquidado pelo Banco Central, em novembro do ano passado.
Desfile de carnaval
Antes mesmo do início da campanha eleitoral, o TSE já foi acionado sobre a antecipação da propaganda e se debruçou sobre um caso rumoroso que opôs bolsonaristas e lulistas – um precedente lembrado por Flávio Bolsonaro diversas vezes na entrevista que deu nesta quinta-feira à GloboNews. Em fevereiro, o TSE negou dois pedidos de liminar dos partidos Novo e Missão para impedir o desfile da Acadêmicos de Niterói em homenagem a Lula, considerado propaganda eleitoral antecipada pela oposição. Após o cortejo carnavalesco, o PL pediu ao TSE a abertura de uma investigação sobre o financiamento do desfile, mas o caso foi arquivado.
“Em tese, o filme do Bolsonaro vai atingir a própria bolha, só vai assisti-lo quem se dispor a ir e pagar o ingresso. Já o TSE não proibiu o desfile do Lula, que foi exibido em TV aberta, financiado com dinheiro público e invadiu a casa de milhões de brasileiros”, afirmou um aliado de Flávio, tentando diferenciar os casos.
O desfile foi marcado pela exaltação à figura de Lula e a programas sociais da administração petista, como o Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida e o Luz para Todos – além de alfinetadas em Bolsonaro, retratado na comissão de frente como um palhaço que acaba preso. A Acadêmicos de Niterói amargou a última colocação e foi rebaixada.
O samba-enredo entoado na Marquês de Sapucaí remetia em seu refrão a um jingle de campanha de Lula, com os versos "Olê, olê, olá, Lula, Lula". Em uma das alas, componentes estavam fantasiados com uma estrela vermelha, em alusão ao símbolo do PT. Já os detalhes do roteiro e da pós-produção de “Dark Horse” não são plenamente conhecidos, mas sabe-se que a produção abordará a trajetória política de Bolsonaro – e dará destaque ao atentado à faca, conforme cenas que vazaram da gravação do filme, com o ator Jim Caviezel encenando o episódio nas ruas de São Paulo.

