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É deletéria a politização da decisão da Anvisa que proibiu detergente Ypê

Por Editorial / O GLOBO

 

Anvisa suspendeu lotes de detergente Ypê por risco de contaminaçãoAnvisa suspendeu lotes de detergente Ypê por risco de contaminação — Foto: Reprodução / Instagram

 

Não faz bem aos brasileiros a politização em torno da decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que determinou a suspensão de fabricação, venda e uso de detergentes, sabões líquidos e desinfetantes de lotes da marca Ypê. A resolução foi tomada no último dia 7, depois de uma inspeção, em parceria com a Vigilância Sanitária de São Paulo, identificar descumprimento de etapas críticas da produção e risco de contaminação na unidade da Química Amparo, em Amparo (SP).

 

A empresa reagiu com indignação. Classificou a decisão como “arbitrária e desproporcional”. Alegou dispor de laudos independentes comprovando que os produtos são seguros e adequados. Depois de recurso apresentado pelo fabricante, a Anvisa suspendeu os efeitos da medida até que o caso seja julgado pela diretoria colegiada na análise prevista para hoje, mas manteve a recomendação de evitar o uso até o fim da apuração. Mesmo com a liberação, a Ypê informou manter linhas de produção paradas.

 

Tanto a decisão da Anvisa quanto a reação da empresa são normais. Se a fabricante se acha injustiçada, tem direito a apresentar seus argumentos e pedir reconsideração. O que não é normal é a dimensão que o caso ganhou, especialmente nas redes sociais. Uma questão que deveria ser estritamente técnica foi pretexto para novos embates improdutivos entre direita e esquerda.

 

A ex-primeira dama Michelle Bolsonaro, o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) e o empresário Luciano Hang (dono da rede de lojas Havan) defenderam o uso dos produtos, contrariando a orientação da Anvisa. Em resposta, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou que “a Anvisa não tem lado A ou B” e que o diretor da área responsável pela suspensão foi indicado durante o governo Jair Bolsonaro. Afirmou ainda que a desinformação “coloca vidas em risco”.

 

É fundamental que a política fique fora da discussão. A questão é se há risco para a população. E, pela avaliação técnica feita pela Anvisa ao lado de outras instituições, o risco existe até prova em contrário. Ou até que a empresa tome providências para mitigá-lo. A agência deve manter a transparência, explicando os motivos que respaldaram a resolução e afastando qualquer dúvida sobre atuação política. Deve voltar atrás apenas se julgar que os problemas foram sanados ou se entender que a empresa tem razão.

 

A Anvisa é uma agência reguladora. Não está subordinada a governos e tem independência para tomar suas decisões. À população, cabe seguir à risca suas orientações, considerando que elas são resultado de critérios objetivos, baseados em evidências científicas, visando a resguardar a saúde e o bem-estar dos brasileiros. Esteja o cidadão à direita ou à esquerda, o mais sensato é respeitá-las.

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