Vitória da ciência brasileira
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A ciência brasileira está em festa: nasceu em Piracicaba, no interior paulista, após quase quatro meses de gestação, saudável e com 1,7 quilo, o primeiro porco clonado na América Latina criado para fornecer órgãos e tecidos aos seres humanos. Trata-se de um feito sem precedentes na área do chamado xenotransplante, a técnica de transplantes entre espécies.
Os porcos são os animais ideais para isso: são domesticados, reproduzem-se bem em cativeiro, têm ninhadas grandes e o tamanho e funcionamento dos seus órgãos e tecidos são semelhantes aos dos humanos. Promissora, a ideia é ter um plantel para atender às demandas do SUS por rim, córnea, coração e pele.Programar geneticamente um porco não é uma tarefa fácil. Mas cientistas da Universidade de São Paulo (USP), liderados pelo cirurgião Silvano Raia (pioneiro dos transplantes de órgãos no País, falecido no dia 28 passado), pela geneticista Mayana Zatz e pelo imunologista Jorge Kalil, superaram esse obstáculo. Foram necessários, para isso, quase seis anos de muita dedicação, com frustrações no meio do caminho.
E essa conquista não se limita a uma jornada que começou em 2019 e acabou em março de 2026, com o nascimento do porco: a programação genética do animal, com a inativação de três genes que causam rejeição, e a inserção de sete genes humanos que facilitam a compatibilidade, decorre do conhecimento científico produzido e acumulado ao longo de décadas em pesquisas genômicas no Brasil.Essa clonagem, aliás, é um bom exemplo de como as mentes brilhantes brasileiras podem ir muito longe, sobretudo quando o setor público e a iniciativa privada juntam esforços na busca de soluções para o bem comum.
Isso porque a pesquisa da USP contou com uma bem-sucedida cooperação entre a instituição e uma indústria farmacêutica, promovida pelo Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (Pite), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A EMS patrocinou o projeto a fundo perdido. E o resultado alcançado prova que vale muito a pena investir em ciência no Brasil.
Tudo isso projeta o País no cenário internacional como um player científico de peso. A programação genética de um porco para torná-lo compatível com transplante em humanos representa o desenvolvimento e o domínio de uma tecnologia estratégica em solo nacional que até então avançava a passos largos nos EUA e na China. Detentor dessa tecnologia, o Brasil não dependerá desses países, o que lhe dará, além da autossuficiência, uma incontestável liderança regional, com a ambição de projetar São Paulo como a capital latino-americana do xenotransplante.
E, não menos importante, dominar essa técnica de clonagem trará ganhos às contas do SUS, responsável pelo maior programa público de transplantes do mundo, que não dependerá de importações. Como se vê, é a ciência brasileira a serviço da saúde pública e, mais importante, a serviço da vida. Num futuro não muito distante, esse avanço representará mais do que tecnologia: significará esperança a milhares de pacientes da fila do transplante de órgãos e tecidos no Brasil.

