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O bolsonarismo além de Bolsonaro

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

O PL do clã Bolsonaro saiu turbinado da janela partidária, período legal em que deputados podem trocar de legenda sem perder o mandato. A sigla que abriga essencialmente o bolsonarismo foi a grande vencedora, ao saltar de 87 para 97 representantes na Câmara, resultado de 23 novas filiações e 13 baixas. Trata-se da maior bancada desde 1998, quando o então PFL alcançou 105 cadeiras. Em contraste, partidos que ambicionavam protagonismo ao centro, como o União Brasil, viram-se enredados por crises internas e perdas consideráveis. Já o PT, mesmo com a máquina governista em mãos, permaneceu estagnado.

 

Mais do que a musculatura renovada do PL, o crescimento demonstra não só a desarticulação de adversários, mas sobretudo a força em que se transformou o bolsonarismo no País. Quando somado à ofensiva pré-eleitoral do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), constata-se sua reafirmação. Jair Bolsonaro pode estar preso, inelegível e afastado do protagonismo eleitoral, mas a corrente política que leva seu nome mostra-se mais viva do que nunca, apesar da derrota de 2022, da revelação da trama golpista e do julgamento e da prisão do ex-presidente e de seus aliados, além do radicalismo empedernido de seu entorno. Ainda assim, demonstra resiliência e adaptação. E, diferentemente do PT de Luiz Inácio Lula da Silva, mostra capacidade de produzir novas lideranças com musculatura eleitoral e força mobilizadora.

 

Convém recordar o que representou o governo de Jair Bolsonaro. Sua gestão, vamos chamar assim, foi marcada por ausência de políticas críveis em áreas-chave como educação, além da condução desastrosa da pandemia de covid-19, com desprezo pela ciência e pelas vidas perdidas, estímulo à desinformação e uma política sanitária que contribuiu para agravar a tragédia humana daquele período. Dispensável lembrar, ainda, as reiteradas investidas contra as instituições democráticas, culminando na escalada golpista que encontrou seu ápice nos ataques de 8 de janeiro de 2023. Bolsonaro testou os limites da democracia brasileira. E seu ocaso pessoal representou um alívio institucional para o País.

 

Ainda assim, o fenômeno político revelou-se maior que seu líder. Há uma base social consistente, ainda que minoritária – entre 12% e 15% do eleitorado mais fiel, segundo diferentes pesquisas –, que sustenta esse projeto com convicção. Mais relevante, porém, é sua capacidade de transbordar esse núcleo duro e influenciar parcelas mais amplas da sociedade.

É nesse ponto que o resultado parlamentar ganha especial relevância. O tamanho da bancada do PL não reflete apenas adesão ideológica, mas também o pragmatismo de atores políticos que farejam a direção do vento. Lideranças do Centrão e da centro-direita, sempre sensíveis à correlação de forças, já perceberam tanto as dificuldades de uma candidatura alternativa à polarização quanto a fragilidade do governo Lula, marcado por inépcia, desgaste político, perda de apoio popular e desânimo na própria base. Diante disso, tais forças não hesitam em se aproximar do polo que aparenta maior viabilidade de poder no curto e médio prazos. E esse polo, hoje, é o bolsonarismo.

 

A janela partidária funcionou, assim, como termômetro e catalisador. Mediu a força relativa das correntes políticas e acelerou um processo de realinhamento com potencial de redesenhar o sistema político brasileiro. O fortalecimento do PL demonstra que o bolsonarismo se institucionalizou. Deixou de ser um fenômeno conjuntural, dependente de uma liderança carismática, para se consolidar como uma força estruturante da política nacional.

 

Ignorar esse fato, ou tratá-lo como uma anomalia passageira, seria erro grave. O bolsonarismo, com todas as suas contradições e riscos, veio para ficar. E seu crescimento não se explica apenas por seus próprios méritos organizativos, mas também pelas falhas de seus adversários, incapazes de oferecer uma alternativa convincente e estável à sociedade.

 

A preservação da democracia exige mais do que derrotas eleitorais pontuais. Depende da reconstrução de confiança e da oferta de caminhos políticos sólidos. Enquanto isso não ocorrer, movimentos como o observado na janela partidária tendem a se repetir – e a ampliar ainda mais a influência de uma força que, longe de definhar, segue em trajetória ascendente.

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