Gatilho da violência doméstica, álcool exige regulação
Um dos efeitos mais perversos do uso abusivo do álcool, de longe a droga mais consumida no país, é servir de gatilho para os já predispostos à violência doméstica: pode reduzir o autocontrole e aumentar a impulsividade; facilitar interpretações equivocadas, como ciúmes ou ameaças imaginárias; escalar qualquer discussão banal para agressões verbais e físicas.
Essa associação explosiva ganha contornos dramáticos em levantamento do Instituto Sou da Paz e da ACT Promoção da Saúde, com base em dados obtidos via Lei de Acesso à Informação.
Entre 2023 e 2024, os pesquisadores identificaram 50.805 ocorrências de violência doméstica envolvendo consumo de álcool apenas no estado de São Paulo —uma média de 70 casos por dia.
Em sua maioria, o roteiro se assemelha: os ataques são concentrados aos fins de semana, no período noturno, dentro de casa e, como imaginado, praticados por homens; mulheres são as principais vítimas, mas crianças e idosos também podem ser alvos.
O álcool é um psicoativo legalizado —e assim deve permanecer; os quase 14 anos de Lei Seca nos EUA provocaram consequências desastrosas, com produção clandestina, crises sanitárias e fortalecimento do crime organizado.
Legalização, contudo, não implica permissividade. Associadas a campanhas educativas massivas, as restrições precisam permanecer rigorosas.
A começar pela proibição efetiva da venda para menores, nem sempre observada, e por limites a horários de funcionamento de bares, que já colheram bons resultados ao reduzir taxas de homicídio em regiões violentas.
A tributação elevada de bebidas alcoólicas, tema que constará da regulamentação da reforma dos impostos, deve evitar preços irrisórios e desincentivar o consumo, além de angariar recursos para o sistema de saúde pública.
Por fim, as restrições à publicidade precisam ser reexaminadas com regularidade —hoje há brechas legais para cerveja e parte dos vinhos e forte dependência da autorregulação do Conar, organização privada que fiscaliza a ética publicitária.
Cumpre avaliar a eficácia de alertas como "se beber, não dirija" e "beba com moderação". À indústria tabagista, por exemplo, foram aplicados com sucesso mensagens duras sobre as consequências do consumo.
Abominável por si só, a associação do etilismo à violência doméstica também pode impulsionar desestruturação familiar, crises psicossociais duradouras e risco considerável de repetição de padrão na próxima geração.

