Juros sob a névoa da guerra
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Em tempos de tanta incerteza, o Banco Central (BC) cumpriu o combinado e reduziu a taxa básica de juros, mas em uma dose menor do que imaginava há dois meses. Se em janeiro a perspectiva de queda da Selic se baseava na desaceleração da atividade econômica e da inflação no País, tudo mudou dois meses depois em razão da deflagração da guerra no Oriente Médio e a consequente disparada dos preços do petróleo.
Não há como prever quando o conflito deve acabar, de forma que tampouco é possível dizer o que o BC fará na próxima reunião, marcada para o fim de abril. Presume-se que os impactos do confronto no mercado interno, por ora, não foram tão grandes, do contrário o Comitê de Política Monetária (Copom) teria mantido os juros em 15% ao ano. Mas também não foram inócuos, haja vista que a Selic caiu apenas 0,25 ponto porcentual (p.p.), para 14,75% ao ano.
Para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi pouco. Já em clima de campanha eleitoral, ele tinha a expectativa de que os juros caíssem ao menos 0,50 ponto porcentual. Sua tropa de choque se manifestou nas redes sociais. A ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, disse que a decisão foi decepcionante. O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) foi além: sugeriu que o País é refém do mercado, que projeta juros elevados e transforma suas apostas em uma profecia autorrealizável, quando nem mesmo países em guerra têm juros tão altos.
Mas a própria atuação do Tesouro Nacional no mercado nesta semana, com a maior intervenção da História no mercado de títulos públicos em valores nominais, evidencia que as turbulências não são desprezíveis. O volume de recompra dos papéis, de R$ 49 bilhões, socorreu justamente os investidores que apostavam numa queda maior da Selic, que tiveram de recalcular a rota em razão das incertezas sobre a guerra no Oriente Médio e sobre uma nova greve dos caminhoneiros.
O Fed, banco central norte-americano, sob intensa pressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não surpreendeu e manteve os juros entre 3,5% e 3,75% nesta semana. Por lá, o presidente da instituição, Jerome Powell, deixou claro que os efeitos da guerra nos preços de petróleo e nas expectativas de inflação preocupam e serão monitorados com atenção, e ninguém vislumbra novos cortes tão cedo.
No Brasil, o comunicado divulgado após a reunião não foi taxativo, e há apostas para os dois lados. A maioria dos analistas viu indícios de que os juros podem cair mais no mês que vem, ou seja, 0,50 ponto porcentual. Outros acreditam que, a julgar pelo cenário e pelo tom do comunicado, a taxa nem sequer deveria ter sido reduzida nesta semana.
Para este ano, as projeções para a inflação subiram de 3,4% para 3,9%. No entanto, para o terceiro trimestre de 2027, o chamado horizonte relevante, que guia as decisões do Copom, a alta foi bem menor, de 3,2% para 3,3%, o que gerou certa perplexidade entre os economistas, que esperavam uma alta maior. Espera-se que a ata da reunião do Copom, a ser divulgada na próxima semana, possa trazer mais pistas, mas a verdade é que tudo vai depender da duração da guerra. Fato é que a Selic está em nível tão elevado, e há tanto tempo, que parecia haver espaço para cortá-la sem muito perigo.
Afinal, na economia real, a diferença entre juros em 15% ou 14,75% é praticamente imperceptível. O crédito continua caríssimo tanto para as famílias quanto para as empresas, como mostram os números de inadimplência e de recuperações judiciais e extrajudiciais.
Se o cenário é ruim para o setor produtivo, encontrar investimentos que rendam mais que os títulos atrelados à Selic sem agregar muito o risco é praticamente impossível. No contexto internacional, o País é um destino seguro para o capital estrangeiro, o que favorece o câmbio e, consequentemente, o Banco Central. Do governo, no entanto, o BC não deve esperar qualquer ajuda.
A guerra no Oriente Médio e as pesquisas que apontam para um empate técnico entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixaram o Executivo apreensivo, ambiente perfeito para que germinem ideias populistas sem qualquer preocupação fiscal. Resta ao País torcer para o conflito acabar o quanto antes.

