Redução artificial de juros do consignado é medida eleitoreira
Por Editorial / O GLOBO
Em pleno ano eleitoral, diante de pesquisas de opinião que têm frustrado o Palácio do Planalto, o governo Luiz Inácio Lula da Silva prepara mais uma medida populista. A ideia agora é reduzir juros dos empréstimos consignados aos contratados pelo setor privado e aposentados do INSS. A medida se junta a outros projetos de cunho nitidamente eleitoreiro que o governo tem, como ampliação do acesso ao programa minha Minha Casa, Minha Vida, distribuição de botijões de gás, isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e tentar acabar com a escala de trabalho 6x1.
Em pleno ano eleitoral, diante de pesquisas de opinião que têm frustrado o Palácio do Planalto, o governo Luiz Inácio Lula da Silva prepara mais uma medida populista. A ideia agora é reduzir juros dos empréstimos consignados aos contratados pelo setor privado e aposentados do INSS. A medida se junta a outros projetos de cunho nitidamente eleitoreiro que o governo tem, como ampliação do acesso ao programa minha Minha Casa, Minha Vida, distribuição de botijões de gás, isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e tentar acabar com a escala de trabalho 6x1.
O alívio no consignado integra o programa Crédito do Trabalhador, lançado há um ano, já de olho nas eleições. O caráter eleitoreiro é indisfarçável — a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, criou o apelido “empréstimo do Lula”. Na avaliação do governo, embora o programa tenha se mostrado positivo, especialmente quando comparado ao cheque especial, os juros ainda se mantêm altos. Depois de um ano, o juro médio no consignado privado chegou a 3,26% ao mês. Mas o governo quer uma taxa abaixo de 3%.
Para ampliar a oferta e tentar baixar o juro, o Ministério da Previdência pretende integrar os empréstimos ao aplicativo Meu INSS, oferecendo aos aposentados um leilão entre bancos. Será possível também oferecer o saldo do FGTS como garantia do empréstimo. A pressa é tanta que o governo pediu à Dataprev que acelerasse ajustes nos seus sistemas previstos para junho.
O governo costuma festejar os números do Crédito do Trabalhador. No fim de fevereiro, a carteira somava R$ 110 bilhões, R$ 77 bilhões em empréstimos novos. Foram firmados 19 milhões de contratos. Mas esses números não traduzem o sucesso de que o governo se vangloria. Problemas técnicos têm sido recorrentes. Houve casos em que o pagamento deduzido dos contracheques foi enviado a bancos errados. Noutros, bancos receberam os pagamentos sem saber de onde vinham. As falhas operacionais alimentaram a inadimplência, forçando os juros a subir. Depois do lançamento, 67% das menções nas redes sociais eram negativas, segundo a Quaest.
O programa cria uma distorção na economia, com redução artificial dos juros e estímulo ao consumo, pressionando a inflação. É temerário facilitar empréstimos quando o endividamento das famílias já está alto. Os efeitos do Desenrola, outro programa demagógico criado para renegociar dívidas, duraram pouco, e hoje já há necessidade de outros. Há sempre o risco de o crédito barato criar uma bolha que depois estoure — e a solução apresentada pelo governo se tornará problema. Por fim, está errada a ideia de Lula de incentivar o consumo na esperança de acelerar a economia. A redução dos juros deve ser resultado de medidas de equilíbrio fiscal capazes de recobrar a confiança do mercado nas contas públicas. Isso permitiria ao Banco Central pagar menos pelo dinheiro que o governo toma emprestado. Ajuste fiscal é o melhor que o governo tem a fazer para garantir crédito barato ao trabalhador.

