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Um espinho entre Lula e Trump

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Um tema espinhoso promete testar a “ótima química” entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump quando o brasileiro for a Washington, possivelmente em abril, para uma visita ao americano: a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.

 

Sob Trump, os EUA já categorizaram diversos grupos criminosos da América Latina como terroristas. Agora, a Casa Branca volta a fazer pressão para que PCC e CV recebam o mesmo tratamento. O governo Lula é contra – e está certo, pois se trata de organizações criminosas cujo objetivo é enriquecer seus integrantes, ainda que eventualmente suas ações aterrorizem a população.

 

A questão volta à tona praticamente no mesmo momento em que Trump anunciou uma nova iniciativa de segurança para o Hemisfério Ocidental, batizada com o retumbante nome de Escudo das Américas. À frente dessa articulação estará Kristi Noem, que se notabilizou como a face da linha dura da política anti-imigração e que acabou demitida por Trump do Departamento de Segurança Interna após uma série de polêmicas.

 

Para o lançamento da iniciativa, Trump reuniu em Miami uma dezena de presidentes latino-americanos fortemente alinhados a ele, entre os quais os da Argentina, Javier Milei, e do Paraguai, Santiago Peña. Ambos também são apoiadores de outro controvertido projeto de Trump, o Conselho da Paz, uma espécie de ONU paralela.

“Assim como formamos uma coalizão para derrotar o Estado Islâmico no Oriente Médio, agora precisamos fazer o mesmo para erradicar os cartéis aqui no nosso hemisfério”, discursou Trump, em defesa de ações militares dos EUA na América Latina.

 

Muito além do discurso de Trump, chama a atenção o fato de que os presidentes do Brasil, da Colômbia e do México, todos de esquerda, não foram convidados para o lançamento. Considerando-se que esses países são os mais relevantes na produção e no escoamento de drogas na região, fica claro que o tal Escudo das Américas é mais retórico que efetivo.

 

Pouco depois do encontro, porém, o chanceler Mauro Vieira conversou por telefone com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, para falar da reclassificação de PCC e CV como organizações terroristas. O Itamaraty teme, não sem razão, que a mudança enseje intervenções militares dos EUA em solo brasileiro, a exemplo da que ocorreu na Venezuela, resultando na prisão do ditador Nicolás Maduro.

 

Embora ninguém lamente que Maduro esteja hoje trancafiado em uma prisão de Nova York, o fato é que Trump usou uma interpretação elástica das leis americanas e do Direito Internacional para capturar o presidente de um país estrangeiro, sob o argumento de que se tratava do líder de uma organização narcoterrorista.

 

Se o histórico de intervenções militares dos EUA na América Latina já não fosse o suficiente para causar preocupação, é preciso levar em conta o comportamento errático de Trump. Não se sabe o que pode levá-lo a decidir que determinada organização criminosa é “terrorista” e ordenar uma ação em qualquer país da região que a abrigue.

Em ano de eleição presidencial, porém, parte da oposição a Lula já faz coro entusiasmado às propostas de Trump, esperando capitalizar a linha dura contra a criminalidade embutida na iniciativa americana e, ao mesmo tempo, vincular ao governo petista a imagem de defensor do PCC e do CV.

 

Já o governo Lula, cuja gestão da segurança pública é vista com desconfiança por boa parte dos eleitores, acerta ao tentar buscar entendimentos com os EUA em relação ao enfrentamento do crime organizado. Lula já sinalizou que quer trabalhar com os americanos no combate ao narcotráfico, ao tráfico de armas e à lavagem dinheiro, o que faz todo sentido. As sinergias entre os dois países em áreas como a de inteligência, por exemplo, devem ser estimuladas.

 

Contudo, não será fácil convencer os EUA a não classificar PCC e CV como terroristas, porque é justamente essa classificação que deixará Trump à vontade para intervir militarmente onde bem entender. Isso deveria ser levado em conta muito seriamente por todos aqueles que, no Brasil, se deixam encantar pelo discurso linha-dura de Trump.

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