Brasil precisa estar preparado para vencer disputa pelos data centers
Por Editorial / O GLOBO
O Brasil tem vantagens comparativas notáveis para hospedar os grandes centros de processamento de dados necessários à expansão da inteligência artificial (IA) pelo mundo. A construção e operação desses data centers é atividade que demanda enorme consumo de energia e de água, usada na refrigeração. Como o país dispõe de geração excedente de energia limpa — tem sido comum jogar fora a eletricidade de parques solares ou eólicos por falta de demanda —, há uma oportunidade evidente. O governo tentou aproveitá-la baixando uma Medida Provisória (MP) que cria um regime especial de tributação e incentivos para atrair investimentos em data centers, o Redata. Ela vence no final de fevereiro, por isso é fundamental que o Congresso se debruce sobre a questão na volta do recesso. Do contrário, a oportunidade que se desenha no setor mais promissor da economia global poderá ser desperdiçada.
Até outubro do ano passado, operavam no Brasil 162 grandes centros de processamento, segundo a Associação Brasileira de Data Centers (ABDC). A maioria fica no Sudeste, concentrada no estado de São Paulo. A nova fronteira de investimento promete descentralizar os polos de processamento, aproveitando o volume crescente de produção de energia eólica e solar no Nordeste — cujo excedente tem causado problemas técnicos nas redes de transmissão.
De acordo com o Ministério das Comunicações, o Brasil ocupa o 12° lugar no ranking global de data centers, liderando o setor na América Latina. Para os próximos quatro anos, são previstos investimentos entre R$ 60 bilhões e R$ 100 bilhões no setor. O próprio mercado tem se adiantado.
Mesmo sem a aprovação final do Redata, o grupo chinês ByteDance, criador do TikTok, confirmou em dezembro que investirá R$ 200 bilhões num data center no Complexo Industrial e Portuário de Pecém, no Ceará. Além de a pegada de carbono do projeto ser baixa, a localização deverá permitir que a refrigeração dos equipamentos seja feita em parte com água do mar. Também pesou na decisão da ByteDance a proximidade do feixe de cabos submarinos que chega no Ceará, facilitando conexões de boa qualidade.
A mesma vantagem atraiu a empresa de infraestrutura digital V.tal, que tem como clientes operadoras de telecomunicações, provedores de internet, empresas de streaming e outras que operam serviços digitais. A operadora de data centers HostDime optou por João Pessoa, na Paraíba, para se expandir dali para outras regiões.
A formatação correta do Redata pode ajudar a compensar o alto custo para qualquer empresa investir no Brasil. Não há tempo a perder. O país não está sozinho na corrida de data centers. No ano passado, a ByteDance já havia anunciado investimentos na Tailândia. Precisamos estar preparados para a disputa.

