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Ultrapassagem perigosa

EDITORIAL DA FOLHA DE SP

Entre 2019 e 2025, o número de motocicletas licenciadas no Brasil passou de 23 milhões para 29 milhões. Essa expansão foi impulsionada pelo trabalho de entregas por aplicativos e pelo uso do veículo como alternativa a sistemas de transporte público precários.

Tal fenômeno exige maior atenção do poder público para minimizar riscos no trânsito, já que acidentes com motos apresentam alto nível de letalidade.

No estado de São Paulo, o número de mortes envolvendo motos subiu de 1.259 entre janeiro e junho de 2024 para 1.329 nos seis primeiros meses de 2025 —recorde da série histórica do sistema estadual de monitoramento Infosiga, iniciada em 2015.

Já em sinistros com carros e pedestres, houve queda de 675 a 612 e de 700 a 659, respectivamente. Na capital, o número de óbitos também diminuiu nos casos com motos, de 237 para 219.

Mas pesquisa da Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos, em parceria com a USP mostra que as autoridades paulistanas ainda precisam melhorar a fiscalização de velocidade dos motociclistas.

A partir de 83.880 observações em vias aleatórias no ano passado, verificou-se que 43% das motos ultrapassaram os limites estabelecidos. Em 2021, início do estudo, foram 33%, com alta para 39% em 2022 e leve queda de 1 ponto percentual em 2023.

Entre veículos leves (carros e utilitários), a taxa de infrações foi bem menor, mas também subiu, de 9% em 2021 para 15% em 2024.

Especialistas apontam dificuldades na fiscalização da velocidade das motocicletas, que, por serem muito leves, podem não ser captadas por sensores no asfalto. Ademais, esse tipo de veículo possui apenas placa traseira, o que impede a captura de imagem por barreiras eletrônicas que realizam registro frontal.

Além de modernizar radares, é preciso reforçar a fiscalização por agentes; mudanças urbanísticas, como estreitamento de vias e sinalizações chamativas, podem induzir a redução da velocidade.

A capital alcançou bons resultados com a faixa azul, que já foi replicada em outras cidades, assim como com a redução dos limites de velocidade nas marginais em 2015, que contribuiu para diminuir em 15% o número de mortes no ano seguinte. A medida, impopular, foi revertida em 2017, mas esse tipo de restrição tem sido usada em metrópoles desenvolvidas como Londres e Paris.

Mesmo assim, na última eleição municipal, tanto o prefeito Ricardo Nunes (MDB) quanto seu oponente, Guilherme Boulos (PSOL), rejeitaram essa política pública capaz de salvar vidas.

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