Violência contra ativista político é inadmissível
Por Editorial / O GLOBO
O tiro covarde que matou na quarta-feira o americano Charlie Kirk, ativista de 31 anos que fundou a organização conservadora voltada ao público jovem Turning Point USA, é o episódio mais recente de uma onda de violência política que tem crescido na esteira da polarização ideológica. Kirk viajava os Estados Unidos visitando universidades para promover debates abertos com estudantes do campo oposto. Partidário de Donald Trump desde a primeira hora, era conhecido como provocador e não economizava palavras para atacar seus adversários. Mas, por mais que suas ideias pudessem ser criticáveis, toda a sua ação política se limitava às palavras e ao debate. Era o que fazia na Utah Valley University quando foi alvejado. Seu assassinato deve servir de alerta — e não apenas aos Estados Unidos.
Desde 2021, a parcela de universitários americanos que afirmam apoiar a violência em certas circunstâncias para impedir adversários de falar subiu de já inaceitáveis 24% para 34%, de acordo com pesquisa da organização Fire, defensora da liberdade de expressão na academia. No livro “Partidarismo radical americano”, referência no estudo da violência política no país, os pesquisadores Nathan Kalmoe e Lilliana Mason constatam “radicalismo crescente na política americana”.
O histórico recente demonstra os riscos da intolerância. Nos últimos anos, os Estados Unidos têm testemunhado atentados em série, tanto contra alvos conservadores quanto progressistas. Em janeiro de 2021, a turba trumpista invadiu o Capitólio tentando reverter o resultado da eleição de Joe Biden. No ano seguinte, a casa da deputada democrata Nancy Pelosi na Califórnia foi invadida e seu marido ferido. Desde o ano passado, Trump escapou de um tiro e de outra tentativa de ataque, um homem ateou fogo na casa do governador democrata da Pensilvânia, e uma deputada estadual democrata de Minnesota e seu marido foram mortos.
O Brasil não escapa da violência associada à polarização. No fatídico 8 de janeiro de 2023, bolsonaristas invadiram e depredaram as sedes dos três Poderes em Brasília, também tentando reverter a derrota de Jair Bolsonaro. Na campanha eleitoral de 2018, o próprio Bolsonaro foi vítima de atentado. Também por aqui, as universidades têm sido palco de conflitos e tentativas de silenciar vozes discordantes, à direita e à esquerda. Na última terça-feira, o advogado de um ex-assessor de Bolsonaro e um vereador do Novo foram expulsos por alunos da UFPR, onde participariam de debate sobre o Supremo Tribunal Federal. Na semana passada, um grupo de extremistas que se identificavam como conservadores causou tumulto no campus da USP e agrediu estudantes de esquerda. Para um em cada dez brasileiros, revela pesquisa inédita da ONG More in Common conduzida pela Quaest, a violência é considerada “totalmente justificável” em certas situações.
Charlie Kirk foi assassinado — Foto: Patrick T. Fallon / AFP

