A pegadinha da deflação
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A deflação de 0,14% em agosto no IPCA-15, prévia da inflação oficial medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), em nada muda o cenário inflacionário do País. Primeiro porque não foi uma queda real de preços o que levou ao saldo negativo, mas o efeito pontual do chamado “bônus de Itaipu”, que aliviou as contas de luz de usuários de baixo consumo. Sem o bônus, que valeu apenas para agosto, o resultado do mês teria sido de avanço na inflação.
O efeito foi menor que o esperado por analistas do mercado financeiro que, já contando com o impacto extraordinário da energia elétrica, haviam traçado uma queda mediana de 0,21% no IPCA-15 de agosto, de acordo com levantamento do Projeções Broadcast. Além de não resultar de um movimento estruturado, a deflação não veio com a intensidade esperada porque os preços de serviços voltaram a subir forte.
Sendo assim, comemorar o índice porque se trata da primeira deflação desde julho de 2023 é cair numa pegadinha. Que o PT faça isso nas redes sociais, celebrando a deflação como um resultado que “reforça compromisso do governo Lula em garantir comida barata e de qualidade às famílias”, é compreensível. Mas que o resto do País não se iluda: tudo continua como antes e, para desalento geral, a taxa no acumulado em 12 meses, de 4,95%, segue muito acima da meta de 3%. Isso mostra por que o Banco Central mantém os juros básicos da economia em nível tão alto, ora em 15% ao ano.
A boa notícia é que, além da energia elétrica, foram verificadas desacelerações em grupos de preços importantes, como alimentos e bebidas e também em transportes, mas ainda de forma lenta e irregular, já que, com incentivo frequente do governo, a economia continua a rodar acima de sua capacidade, com efeitos prejudiciais no consumo e nos preços.
A redução nos preços da energia elétrica – um dos cinco itens com maior peso na ponderação do IPCA – poderia ocorrer de forma relevante e prolongada, se houvesse uma limpeza dos penduricalhos que encarecem as tarifas para a concessão dos mais diversos incentivos públicos à custa dos consumidores. Seria um duplo acerto do governo, já que contribuiria para frear a inflação e cumpriria a promessa recorrente de baratear as contas de luz.
Em vez disso, o bônus de R$ 936,8 milhões que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) autorizou distribuir em agosto pelo resultado positivo da Usina de Itaipu em 2024 (R$ 883,1 milhões pelo saldo efetivo da conta e R$ 53,7 milhões pelos rendimentos de sua aplicação financeira) tem efeito espetaculoso, mas não passa de paliativo para um mês do ano – além de ficar restrito às contas de luz de usuários que consumiram até 350 quilowatts-hora (kWh) em ao menos um mês de 2024. Trata-se de um alívio transitório na conta.
Para reduzir a inflação de fato e finalmente cumprir a meta estabelecida pelo próprio governo, não basta contar com situações excepcionais. É preciso mexer estruturalmente nos gastos públicos que aquecem um mercado incapaz de atender à demanda, como ensina qualquer manual de economia.

