A Bolívia rechaça a esquerda
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A Bolívia chegou a 2025 esgotada. As eleições de domingo confirmaram a implosão do Movimento ao Socialismo (MAS), outrora a máquina política mais poderosa do país e símbolo da chamada “onda rosa” latino-americana. Mesmo somados, os dois candidatos associados ao legado do MAS mal chegaram a dois dígitos; no Parlamento, a bancada encolheu a níveis residuais. O segundo turno em outubro será disputado entre candidatos à direita, expressão de uma sociedade que decidiu virar a página.
O colapso do MAS não se explica apenas pelo desgaste natural de quem governou por quase duas décadas. Sua ascensão, sob Evo Morales, foi meteórica: pela primeira vez, a maioria indígena se viu representada no poder, em um ciclo alimentado pela bonança das commodities e por reformas de inclusão social. Mas a queda foi igualmente fulminante, porque o partido confundiu hegemonia com impunidade. Morales e seus sucessores acreditaram-se donos do Estado. Rasgaram a Constituição, manietaram tribunais, sufocaram a imprensa, perseguiram opositores e dilapidaram o maior excedente econômico da história boliviana.
A economia cambaleia sob déficits crônicos, reservas internacionais exauridas e risco iminente de moratória. O Estado “plurinacional”, vendido como utopia emancipatória, degenerou em cleptocracia vulgar. A cultura política foi contaminada pela lógica do “caudilho indispensável” e pelo clientelismo dos subsídios fáceis, sempre mais rentistas do que transformadores. O MAS desperdiçou o ciclo de exportações e, em nome da “defesa dos pobres”, corroeu salários e fabricou nova pobreza.
A Bolívia é um estudo de caso eloquente sobre a desmoralização do populismo esquerdista latino-americano. A nova geração de governos de esquerda recicla velhas promessas e entrega mais do mesmo: crescimento anêmico, fuga de capitais, instituições degradadas e um mal-estar democrático que mina a confiança dos cidadãos. Do México à Colômbia, do Chile ao Brasil, a fadiga é palpável. O “socialismo do século 21” revelou-se uma etiqueta de marketing para projetos que oscilam entre o autoritarismo bruto e o assistencialismo improdutivo – uma espécie de realismo mágico aplicado à economia, sempre com o mesmo desfecho: a ruína.
Para o Brasil, a experiência boliviana serve de espelho incômodo. O lulopetismo compartilha com o “companheiro” Morales e seus asseclas o mesmo vício de manipular a retórica da inclusão para aparelhar estruturas de poder, corroer a responsabilidade fiscal e hostilizar instituições de controle. Também aqui, a ilusão populista cobra seu preço em crescimento errático e polarização.
A boa-nova é que a Bolívia mostrou que a fadiga pode virar ruptura. As urnas sepultaram um modelo que parecia inexpugnável. Mas o pós-MAS exigirá maturidade: será preciso reconstruir a democracia liberal, reerguer a economia em bases produtivas e recuperar a ética republicana, evitando a tentação da demagogia com sinal trocado. Tarefa hercúlea, especialmente em se tratando da turbulenta Bolívia, mas indispensável.
O país que foi laboratório do populismo do século 21 pode agora converter-se em laboratório da sua superação. Que não desperdice, outra vez, a oportunidade.

