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Polarização política distribui culpas pelo tarifaço

Pode causar estranheza, à primeira vista, que 35% dos brasileiros aptos a votar considerem que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) seja o principal culpado pelo choque tarifário aplicado pelo governo de Donald Trump às exportações brasileiras para os EUA, segundo pesquisa Datafolha deste mês.

É fato que Lula pode não ser uma figura das mais simpáticas à Casa Branca, dados o antiamericanismo que contamina a política externa petista, a proximidade com a China no Brics ou a defesa doutrinária do protecionismo comercial histórico do Brasil. Mas essas são velhas parolagens secundárias na geopolítica global, que nem de longe justificam a taxação brutal de 50%.

O próprio Trump, ademais, citou repetidamente o processo contra Jair Bolsonaro (PL) no Supremo Tribunal Federal ao anunciar suas sanções, e Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente, propagandeia sua influência na ofensiva do republicano.

De acordo com o Datafolha, Jair Bolsonaro é tido como o maior culpado pelas tarifas americanas por 22% do eleitorado, e Eduardo, por 17%. Os dois percentuais somados, portanto, mal superam o amargado por Lula.

Parece evidente que as avaliações são pautadas pela polarização ideológica que marca a política brasileira dos últimos anos —e o bolsonarismo mantém grande influência sobre a opinião pública nacional, a despeito das agruras judiciais de seu líder.

Note-se ainda que 15% dos votantes culpam o ministro Alexandre de Moraes, relator da ação contra Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal, pelo tarifaço.

A agressão de Trump deu a Lula a preciosa oportunidade política de atuar como defensor dos interesses do país. Nem por isso o apoio ao petista se estendeu além das dimensões habituais.

Em outra pesquisa recente do Datafolha, 39% dos entrevistados se declararam mais identificados com o petismo, e 37%, com o bolsonarismo, num empate técnico que abarca três quartos do eleitorado nacional —o quarto restante reúne os neutros (18%), os avessos aos dois polos (5%) e os que não souberam responder (1%).

A fidelidade se mantém elevada nos dois grandes blocos, espelhando a disputa presidencial de 2022, vencida por Lula com vantagem mínima sobre Bolsonaro.

Tal situação convém aos expoentes de ambos os lados, que se mantém protagonistas na política mesmo sem conquistar maiorias sólidas na sociedade. É prejudicial à racionalidade do debate, à civilidade do diálogo e à formação de consensos essencial para o avanço da agenda do país.

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