Putin, Trump e Lula têm cada um a sua Ucrânia
Uma Munique no Alasca? Na Munique original, em 1938, britânicos e franceses entregaram os Sudetos tchecos a Hitler. No Alasca, Estados Unidos e Rússia reuniram-se sem a presença da Ucrânia para discutir as fronteiras ucranianas. O princípio de que fronteiras não podem ser mudadas pela força não passou pela mente de Trump. Mas, na linha dos “intercâmbios de terras”, ele cogitou em voz alta recuperar a “propriedade à beira-mar” perdida pela Ucrânia — as províncias de Kherson e Zaporijia, parcialmente ocupadas pelas forças russas. Negócios imobiliários.
Lula não se entrega a misticismos históricos nem decifra as guerras pela régua do mercado de imóveis. Seu paradigma imutável é um antiamericanismo ancorado na pobre tradição intelectual da esquerda latino-americana. Sob as lentes do presidente brasileiro, a Ucrânia é uma peça no tabuleiro do “imperialismo americano”.
Como Putin e Trump, Lula não enxerga a Ucrânia como país detentor das mesmas prerrogativas dos demais, aí incluído o direito de escolher suas próprias alianças políticas, econômicas e militares. No seu juízo, expresso em entrevista de maio de 2022, a “razão para a invasão da Ucrânia é a Otan”. Sua solução:
— Os Estados Unidos e a Europa poderiam ter dito: “A Ucrânia não vai entrar na Otan”. Estaria resolvido.
Falso, claro, pois a hipotética negativa não restauraria a “nação triune” almejada por Putin.
A entrada na Otan era, até a invasão, um sonho ucraniano distante. Mas o sonho decorre de motivos similares aos dos países da antiga Cortina de Ferro que ingressaram na aliança militar entre 1999 e 2020: o temor do imperialismo russo. O Império Russo subjugou os países bálticos, a Ucrânia, Belarus e Moldávia. A União Soviética estendeu sua esfera de influência ao conjunto da Europa do Leste e, para aplastar movimentos reformistas, invadiu a Hungria e a Tchecoslováquia. Daí que, desde o colapso da União Soviética, as nações dessa parte da Europa concluíram que só a Otan poderia garantir sua independência.
Lula, porém, é incapaz de entender isso, pois estudou numa escola ideológica pervertida que afirma só existir um imperialismo: dos Estados Unidos. Sua mal disfarçada solidariedade a Putin é a consequência lógica da caricatura binária em que acredita.
Putin, Trump e Lula produzem autorretratos quando falam sobre a Ucrânia. As imagens não são bonitas.

