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A capitulação democrata

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Em sua primeira entrevista desde que deixou o cargo de vice-presidente dos EUA, a democrata Kamala Harris, que disputou a presidência contra Donald Trump em 2024, afirmou ao apresentador Stephen Colbert que muito do que o presidente está fazendo era previsível. O que não se podia antecipar, disse, é o que ela chamou de “capitulação”.

 

Kamala tem razão. Desde que retornou à Casa Branca, há pouco mais de seis meses, Trump tem imposto seus desígnios praticamente sem enfrentar resistência nem externa nem, sobretudo, interna.

 

Ocorre que a rendição interna a Trump tem muito a ver com a letargia do Partido Democrata, que segue sem rumo e desconectado dos eleitores mais de um ano depois que o então presidente Joe Biden desistiu de disputar a reeleição – da qual, obviamente, o abatido ex-mandatário não tinha condição alguma de participar. A maior prova disso é que, mesmo em momento em que a popularidade de Trump é desafiada por questões econômicas e pela suposta associação do presidente ao pedófilo Jeffrey Epstein, já falecido, a aprovação aos democratas é a mais baixa dos últimos 35 anos, de acordo com pesquisa divulgada recentemente pelo The Wall Street Journal.

 

Apenas 33% dos entrevistados manifestaram opinião favorável aos democratas. Mesmo preocupados com as consequências das tarifas de Trump, bem como com a condução da política externa e com a questão inflacionária, a maioria confia mais nos republicanos do que nos democratas para lidar com esses assuntos no Congresso.

 

Outro grande jornal norte-americano, o The New York Times, conversou com um grupo de 11 eleitores latinos que votaram em Trump em novembro passado para saber como eles avaliavam o governo do republicano – a migração dos votos latinos, tradicionalmente um bastião democrata, para Trump foi bastante importante para a vitória do republicano sobre Kamala Harris. Embora o grupo entrevistado pelo Times entenda, de forma geral, que a economia sob Trump não está apresentando os resultados que eles esperavam, e que a caçada a imigrantes passa do ponto quando não se limita a criminosos e terroristas, apenas um dos onze votaria em um candidato democrata para substituir Trump nas eleições de 2028.

 

Tradução: mesmo com Trump adotando políticas inflacionárias, encarecendo os custos de produção nos EUA tanto por conta das tarifas quanto pelo ataque aos trabalhadores imigrantes, e cortando verbas na saúde e na educação, nem assim o Partido Democrata consegue se reconectar ao eleitor que até pouco tempo era seu.

 

Pior: as poucas respostas que o partido produziu até agora, como a vitória do socialista de 33 anos Zohran Mamdani nas primárias para a prefeitura de Nova York, apenas dão mais gás à base trumpista mais radical, para a qual os democratas só se ocupam das chamadas questões identitárias.

 

Se permanecerem divorciados dos eleitores, os democratas correm o sério risco de seguirem minoritários no Congresso nas eleições de meio de mandato em 2026. E não porque Trump não esteja tratando de sabotar o próprio partido, o Republicano, mas porque os democratas seguem ocupados em ignorar a realidade.

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