Ataque certeiro na Cracolândia
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Os cidadãos que caminham pela antiga Cracolândia, no centro de São Paulo, região que um dia foi ocupada por usuários de drogas que vagavam sem rumo e entorpecidos pelo crack, encontram agora as vias livres do consumo a céu aberto da droga. Desde março deste ano, quando o chamado fluxo de usuários do crack desapareceu da Rua dos Protestantes, foram muitas as hipóteses aventadas para a mudança de um cenário que estava degradado havia mais de 30 anos. Hoje, sabe-se que o estrangulamento de um ecossistema do crime arquitetado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) de dentro da Favela do Moinho levou a esse esvaziamento.
Foi isso o que mostrou uma recente reportagem publicada pelo Estadão. A favela encravada entre duas linhas de trens sob responsabilidade do Estado e erguida em um terreno da União era uma espécie de quartel-general do PCC no centro. Dali, criminosos usavam a intricada estrutura local para armazenar e distribuir drogas na Cracolândia, captavam sinais de radiotransmissores da Polícia Militar (PM) e ainda promoviam julgamentos num “tribunal do crime”, nos quais costumam punir comparsas e inimigos, além de aterrorizar a comunidade.
Coube ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), explorar a inteligência no combate ao PCC na região central da capital paulista. E, com a queda do QG da facção na Favela do Moinho, caiu também a oferta de drogas. Como disse o promotor de Justiça Lincoln Gakyia, “uma coisa”, o consumo do crack na Cracolândia, “não poderia sobreviver sem a outra”, o tráfico oriundo da favela.
Ao mesmo tempo em que o PCC era asfixiado pelas operações do Gaeco, a Polícia Militar assumiu seu papel de atuação ostensiva. Houve queixas contra a presença dos PMs no Moinho, mas sempre é bom lembrar que, como mostrou o Estadão, os moradores da favela viviam sob o medo e ainda eram alvo de achaques de integrantes do PCC, os verdadeiros inimigos. Presentes na entrada da favela, policiais dificultaram a vida dos bandidos, ao passo que o governo do Estado, a Prefeitura e o governo federal, após divergências que foram acertadamente sanadas, chegaram a uma solução para quase 900 famílias, com a sua remoção para unidades de programas habitacionais.
Como se vê, o uso da inteligência nas investigações e operações deflagradas na Cracolândia, a presença ostensiva necessária e adequada da PM na Favela do Moinho e a promoção de políticas públicas de habitação aos moradores da área resultaram no desaparecimento do infame fluxo de usuários do crack. Decerto, houve dispersão pelo centro, o que levou a críticas da população, mas isso não anula os feitos desse trabalho do poder público sustentado nesses três pilares.
Para chegar ao resultado almejado por todos os paulistanos, que é o fim das Cracolândias pela cidade, as autoridades precisam socorrer, com ações de saúde, os usuários de drogas. Há muitos motivos para comemoração, mas há ainda um delicado e humano trabalho a ser feito.

