O populismo venceu, e essa é a questão crucial para o século XXI
Por David Brooks (The New York Times) / O ESTADÃO DE SP
O principal debate político do século XX foi sobre o tamanho do governo. À esquerda, as pessoas tentavam usar o governo para reduzir a desigualdade e oferecer uma rede de segurança econômica. À direita, as pessoas tentavam reduzir impostos e regulamentações para impulsionar o crescimento e o dinamismo social.
Essa era acabou. Donald Trump é um populista defensor do governo grande e destruiu o conservadorismo do Estado mínimo. Ele usa o poder do Estado para adotar uma política tarifária mercantilista que redireciona os fluxos comerciais globais. Ele usa a política industrial para escolher vencedores e perdedores econômicos. Ele usa o poder do Estado para microgerenciar universidades importantes. O Departamento de Defesa de Trump acaba de gastar US$ 400 milhões para se tornar o maior acionista de uma empresa privada de elementos de terras raras. Trump conseguiu uma “ação de ouro” da U.S. Steel, dando ao presidente amplos poderes sobre as decisões comerciais de uma empresa privada.
Há quase 45 anos, Ronald Reagan disse em sua primeira posse: “Na crise atual, o governo não é a solução para o nosso problema; o governo é o problema”. Isso parece ter acontecido há muito tempo. Agora temos um governo que se concentra no poder executivo e em ações federais implacáveis.
Como os republicanos avançaram tanto e tão rápido?
Bem, o debate do século XX sobre o papel do governo aconteceu em uma época em que as pessoas basicamente achavam que os Estados Unidos estavam funcionando. Quando a sociedade parece estável, o indivíduo é visto como a principal realidade política: como podemos apoiar os indivíduos para que possam crescer e prosperar — um corte de impostos aqui, um novo programa social ali.
Mas hoje, a maioria das pessoas acha que os Estados Unidos estão decadentes. De acordo com pesquisas recentes, a confiança do público nas instituições está perto de seu nível mais baixo histórico. De acordo com uma pesquisa recente da Ipsos, cerca de dois terços dos americanos concordam com a afirmação: “A sociedade está quebrada”.
Como David Frum apontou recentemente na revista The Atlantic, entre 1983 e 2007, a porcentagem de americanos que estavam satisfeitos com “a maneira como as coisas estão indo nos EUA” atingiu picos de cerca de 70% e frequentemente ficava acima de 50%. Nos 15 anos entre 2007 e 2022, o número de americanos satisfeitos com a forma como as coisas estavam indo caiu para cerca de 25%.
A ordem social dos Estados Unidos se fragmentou, e isso fez toda a diferença. A filósofa francesa Simone Weil escreveu certa vez que “a ordem é a primeira necessidade de todos”. Ela enfatizou que a ordem social é construída sobre nossas obrigações uns para com os outros, a textura de nossas relações de confiança.
Em outras palavras, todos os seres humanos precisam crescer em um ambiente seguro, no qual possam construir suas vidas. A ordem social consiste em uma família estável, uma vizinhança segura e coesa, uma vida comunitária e cívica vibrante, um conjunto de leis confiáveis, um conjunto de valores compartilhados que os vizinhos podem usar para construir comunidades saudáveis e a convicção de que existe uma verdade moral.
Se você quiser ter uma ideia mais clara do que é uma ordem social, recomendo a leitura do livro de Russell Kirk, de 1974, “The Roots of American Order” (As raízes da ordem americana). Kirk mostrou como, ao longo dos séculos, certos valores, práticas e instituições surgiram, formando gradualmente a base da ordem social americana.
Kirk escreveu que a importância da ordem social era melhor apreciada ao imaginar seu oposto: “Uma existência desordenada é uma existência confusa e miserável. Se uma sociedade cair em desordem geral, muitos de seus membros deixarão de existir. E se os membros de uma sociedade estiverem desordenados em espírito, a ordem externa da comunidade não poderá perdurar.”
Milhões de americanos acreditam que estamos neste ponto. Eles veem famílias se fragmentarem ou nunca se formarem, a vida nas vizinhanças se deteriorar, igrejas ficarem vazias, amigos morrerem de vícios, centros urbanos ficarem desertos, uma elite nacional se tornar social e moralmente distante. Privatizamos a moralidade, de modo que não há mais valores compartilhados. As instituições da classe educada tornaram-se cada vez mais esquerdistas e, às vezes, podem parecer um exército de ocupação hostil para outros americanos.
Quando a ordem social é saudável, ninguém percebe; quando está em ruínas, só se pensa nisso. Uma vez que a ordem social foi destruída, o conservadorismo do governo pequeno não fazia mais sentido. Se sua sociedade está em frangalhos, você iria querer um governo pequeno que não faz nada? Se você acha que a sociedade está em caos moral e cívico, pensaria que este ou aquele corte de impostos ou este ou aquele programa governamental fará diferença?
Sou um grande fã dos baby bonds [contas de poupança para crianças, com depósitos iniciais e adicionais feitos pelo governo, dependendo da renda familiar]. Mas um estudo recente de alta qualidade mostrou que crianças cujos pais receberam US$ 333 por mês não se saíram melhor ao longo de quatro anos do que crianças cujos pais não receberam nada. Se a ordem social em que uma criança está inserida está dilacerada, o dinheiro federal por si só não ajudará.
As pessoas que acham que a sociedade é fundamentalmente manipulada, injusta e caótica recorrem aos populistas. O populismo é um ethos que atravessa as categorias dos debates sobre governo grande vs. Estado mínimo. Os populistas podem ser muito conservadores em questões sociais e isolacionistas e nativistas em questões de imigração, mas muito progressistas quando se trata de redistribuir a riqueza.
Durante a década de 1930, por exemplo, o Plano Townsend foi de longe o maior movimento social, alegando ter mais de 1.000 clubes em todo o país. Alguns de seus apoiadores eram hostis ao New Deal, e suas reuniões apresentavam denúncias frequentes contra cigarros, batons, beijos e outros sinais de “depravação urbana”, mas essas pessoas também apoiavam subsídios para idosos que superavam aqueles propostos como parte do que era então o novo sistema de Previdência Social.
Recentemente, aprendi uma nova palavra em um artigo de Jon Allsop na revista The New Yorker: misarquista. Um misarquista é um líder hostil ao governo e às pessoas que o administram, mas disposto a usar o poder do Estado para impor a ordem e a moral tradicional. Os misarquistas muitas vezes veem um cargo público como sua propriedade pessoal, que podem usar como quiserem para derrubar seus inimigos.
Trump é um misarquista extraordinário. Ele concentra o poder do Estado para poder perseguir a classe administrativa que ele e seus seguidores acreditam ter traído os Estados Unidos e destruído a ordem social — funcionários públicos, administradores universitários, jornalistas, cientistas e assim por diante. O objetivo é usar o poder do Estado para, nas palavras de JD Vance, “derrubar a classe dominante moderna”. Trump, de forma demagógica, chamou isso de retribuição. Mas milhões de seguidores de Trump veem isso como sua melhor chance de restaurar a ordem.
O argumento central do século XXI não é mais sobre o tamanho do governo. O argumento central deste século é sobre quem pode fortalecer melhor a ordem social. Nessa disputa, os republicanos têm seus campeões e os democratas nem sequer estão em campo.
Os republicanos compreenderam mais rapidamente estas novas circunstâncias porque os conservadores compreendem instintivamente que a política é consequência da cultura. Compreendem instintivamente a importância primordial do pré-político; aqueles laços de aliança que precedem a escolha individual — o seu compromisso com a família, Deus, nação e comunidade. Compreendem, como argumentou Edmund Burke, que as boas maneiras e a moral são mais importantes do que as leis. A ordem social é a realidade social primordial.
Desde a era progressista, os democratas têm visto a sociedade através de uma lente de política governamental que muitas vezes ignora o tecido social pré-político que mantém ou não mantém a sociedade unida a partir da base. Os democratas têm sido frequentemente tecnocráticos, confiando excessivamente nas ciências sociais e na política; eles são propensos a um tipo de pensamento que não vê os tendões da nossa vida comum — as coisas que não podem ser quantificadas.
Os democratas são o partido da classe gerencial de elite, e é difícil para nós, pessoas abastadas e instruídas das cidades majoritariamente democratas, compreender realmente o desgosto, a raiva e a alienação angustiantes que envolvem os menos privilegiados ao verem sua ordem social desmoronar. BLi dezenas de artigos de políticos democratas sobre como seu partido pode reverter a situação. Cada um deles — promovendo esta ou aquela política — é mais patético do que o anterior.
Essas pessoas ainda agem e pensam como se estivéssemos no século XX e tudo fosse melhorar se pudéssemos ter outro New Deal. Elas nem mesmo estão dispostas a enfrentar a questão central do Partido Democrata: como o partido da elite gerencial se adapta a uma era populista?
A oportunidade democrata vem do fato de que, como sempre, Trump não tenta resolver os problemas que aborda; ele apenas oferece uma simulação de solução, como se fosse um espetáculo. Se os democratas conseguirem apresentar uma visão alternativa de como reparar a ordem social e moral, eles poderão ser relevantes nos próximos anos.

