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É vergonhoso Brasil estar entre países com mais crianças sem vacinação adequada

Por Editorial / O GLOBO

 

É uma lástima que o Brasil tenha voltado à lista dos 20 países com mais crianças sem vacinação adequada. O levantamento, feito pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), põe o Brasil em 17º lugar no ranking. Segundo o estudo, as crianças brasileiras que não estão com vacinas em dia passaram de 103 mil, em 2023, para 229 mil, em 2024. É verdade que, baseada em valores absolutos, a lista precisa ser lida com cautela — países com maior população tendem a ter mais crianças com vacinação defasada. Mesmo assim, a situação brasileira preocupa. Em fevereiro, das 19 vacinas do calendário infantil, só três haviam cumprido a meta de cobertura.

 

O ranking do Unicef e da OMS se baseia na vacina tríplice bacteriana (DTP1), que protege contra difteria, tétano e coqueluche. Ela é usada como parâmetro de acesso aos programas de imunização. Pode, contudo, ofuscar progressos relevantes no controle de outras doenças. No Brasil, é o caso do sarampo. Em novembro do ano passado, depois de incremento da cobertura, o país voltou a receber da Organização Pan-Americana de Saúde a certificação de livre do sarampo. Já a obtivera em 2016, mas perdeu-a em 2018 pelo descuido com a vacinação. O certificado deve ser celebrado, mas esse e outros eventuais avanços têm sido insuficientes para proteger a população.

 

Em 2023, ano para o qual estão disponíveis os dados mais recentes, a maior parte dos estados brasileiros não atingiu as metas almejadas para vacinas do calendário infantil, revelou o anuário VacinaBR, elaborado pelo Instituto Questão de Ciência (IQC) em parceria com a Sociedade Brasileira de Imunizações e o Unicef. As doenças cujas vacinas estavam em situação mais crítica eram poliomielite, meningite tipo C, varicela e infecção por H. influenzae tipo b.

 

Vários obstáculos têm impedido que o país alcance as metas. A desinformação e as campanhas antivacina são apenas um. A displicência é outro. Como diversas doenças estão sob controle, muitos pais não veem necessidade de levar os filhos ao posto de saúde. É um erro. A doença só está adormecida devido à vacina. Com a cobertura em queda, a população fica exposta, e pode se repetir o que aconteceu com o sarampo. Existem ainda problemas logísticos. A localização e o horário de funcionamento das unidades de saúde não facilitam a vida do cidadão. Autoridades também têm falhado no abastecimento. Uma em cada três cidades relatou falta de vacina em pesquisa da Confederação Nacional de Municípios.

 

É preciso que as três esferas de governo trabalhem juntas em favor da vacinação. Se a cadeia de distribuição se rompe, a vacina não chega ao cidadão. Os progressos registrados recentemente devem ser aprofundados para tirar o Brasil da lista nefasta. Aumentar as campanhas educativas e facilitar o acesso, levando as doses a escolas, terminais de transporte público e grandes eventos, têm se revelado estratégias eficazes. Não se pode é deixar a população vulnerável, depois ter de jogar vacina fora por falta de procura.

 

crinça feliz

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