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As ausências na cúpula do Brics são também uma oportunidade para o Brasil

Por Filipe Figueiredo / O ESTADÃO DE SP

 

cúpula do Brics que ocorrerá no Brasil na próxima semana estará esvaziada. Já são pelo menos quatro lideranças que confirmaram ausência, por variados motivos. O impacto negativo dessas ausências se dá especialmente no campo simbólico, e também se relaciona com o momento mais amplo da política externa brasileira. Ao mesmo tempo, entretanto, essas ausências podem criar uma ótima oportunidade para aprofundamento de relações com um parceiro essencial que é um ator de crescente peso no cenário global.

 

Uma das ausências já era esperada, na realidade. Vladimir Putin, presidente da Rússia que tem contra si um mandado de prisão pelo Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra cometidos após a invasão russa da Ucrânia. O Brasil, signatário do estatuto de Roma, teria obrigação de prender o presidente russo, ainda mais considerando que o país possui separação entre poderes, cenário distinto de quando, por exemplo, Binyamin Netanyahu visitou a Hungria, embora também tenha contra si um mandado de prisão pelo mesmo tribunal.

 

A segunda ausência, e certamente a de maior impacto, é a de Xi Jinping, presidente chinês, que alegou questões de agenda. Será a primeira cúpula do Brics sem a presença do presidente chinês. Essa ausência provavelmente está ligada a certa fadiga em relação a compromissos internacionais envolvendo o Brasil e a China.

 

O Brasil sediou a cúpula do G20 no ano passado e sediará a COP 30 no próximo ano. Além disso, Lula e o presidente chinês se encontraram duas vezes em 2025, em Moscou e em uma visita de estado do presidente brasileiro à China. Também houve visita bilateral de Xi à Brasília no contexto do G20.

 

Outras duas ausências da cúpula do Brics são de lideranças de países que entraram recentemente no bloco, Egito e Irã, devido aos acontecimentos correntes em sua região, especificamente a possibilidade iminente de um acordo sobre a Faixa de Gaza e o conflito entre Israel e o Irã.

 

Com tantas ausências, não se deve esperar uma cúpula do Brics ambiciosa em pautas internacionais, focada no reforço de posições já consolidadas dentro do grupo, como a necessidade de reforma da governança global. Outra incógnita é sobre a participação saudita na cúpula. Seu ministro de relações exteriores veio ao Brasil em abril, porém o país ainda não é oficializado como membro do grupo.

 

Nada disso é sinônimo de terra arrasada, entretanto. Existem pelo menos duas oportunidades para o Brasil nesta cúpula. A primeira é aprofundar o foco da diplomacia brasileira em temas como combate à pobreza e à fome, continuando os trabalhos iniciados no G20 com a criação da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza. A segunda oportunidade é intensificar a parceria entre Brasil e Índia. Após a cúpula do Brics, Lula receberá o primeiro-ministro indiano Narendra Modi em visita de Estado à Brasília.

 

É possível até especular que o atual cenário entre China e Índia contribua para a ausência de Xi na cúpula. China e Índia historicamente alternam momentos de convivência e de rivalidade sistêmica. Nos últimos anos, a rivalidade está exacerbada. Em 2025, ocorreu novo conflito entre Índia e Paquistão, e os paquistaneses possuem na China o seu principal aliado. Diversos think tanks de inteligência e defesa constataram que a China prestou auxílio essencial para o esforço de guerra paquistanês.

 

Existem uma miríade de temas de cooperação e colaboração entre Brasil e Índia que podem ser ainda mais aprofundados. Mantendo o tema da nossa coluna anterior, a cooperação em temas de tecnologia e de produção bélica é um desses temas. O mundo está, com todos os pesares, aumentando os seus gastos militares e o Brasil já foi um grande exportador de armamentos.

 

Intensificar tais relações com a Índia fornece um parceiro confiável, diretamente interessado e que permite ao Brasil e suas forças armadas contornarem algumas disputas sistêmicas e políticas. Evita dependência dos Estados Unidos, sem aborrecer Washington comprando armamento chinês e também diminuindo tensões políticas internas vistas na possível compra, pelo Exército Brasileiro, de armamento israelense.

 

Lula recentemente se encontrou com Modi no G7 no Canadá e o presidente brasileiro também abriu o Fórum Econômico Brasil-Índia nessa semana. Os dois países são parceiros em vários outros fóruns além do Brics, como no G4, pela reforma do Conselho de Segurança da ONU, e no IBAS. Embora geograficamente distantes e com relações históricas e culturais que pouco fazem parte do imaginário popular, Brasil e Índia têm desenvolvido nas últimas décadas uma sólida parceria, cujo maior exemplo de realização conjunta talvez sejam os popularmente chamados remédios genéricos. Que essa relação seja o foco na próxima semana, não as ausências de outras lideranças.

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Opinião por Filipe Figueiredo

Filipe Figueiredo é graduado em história pela USP, comentarista de política internacional e criador dos podcasts Xadrez Verbal e Fronteiras Invisíveis do Futebol, sobre política internacional e história

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