Crise de hospedagem para COP30 em Belém era previsível e evitável
Por Editorial / O GLOBO
Desde o início eram evidentes os desafios de sediar em Belém a Conferência do Clima das Nações Unidas, a COP30. O governo errou no planejamento e não tratou a tempo das deficiências na infraestrutura hoteleira, incapaz de acomodar as delegações. Eram previsíveis as dificuldades. Também era previsível a explosão no preço da diária dos hotéis, como resultado da lei da oferta e da procura. Por isso a crise era evitável.
São esperadas 50 mil pessoas para uma rede hoteleira que dispõe de 18 mil leitos. Empresários investiram em ampliações, contrataram transatlânticos para servir de hotéis no porto, converteram escolas públicas em albergues, apostaram em aluguéis por temporada e noutras alternativas. De acordo com a última informação, de maio, havia pouco mais de 35 mil leitos garantidos e 10 mil adicionais previstos, num total em torno de 45 mil.
Depois de o governo ter sido incapaz de prevenir a escassez, agora a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), vinculada ao Ministério da Justiça, notificou 24 estabelecimentos hoteleiros e o Sindicato de Hotéis e Restaurantes dos Municípios de Belém e Ananindeua, com pedidos de esclarecimento em “caráter preventivo”, para “apurar possíveis práticas abusivas e aumentos atípicos dos preços de diárias no contexto da realização da COP30”. Ora, a atipicidade é óbvia: Belém receberá milhares de uma só vez.
Guardadas as diferenças, é o que acontece durante o Círio de Nazaré, em outubro, quando as tarifas também sobem. Pelas informações disponíveis, as diárias para a COP30 estão 80% mais altas que na celebração religiosa, usada como parâmetro pela rede hoteleira. É provável que, diante da escassez e aproveitando o caráter global da conferência, os empresários locais tenham procurado ampliar a margem de lucro. Mas o governo deveria ter planejado melhor. Só começou a cuidar das acomodações tarde demais. “Em princípio, as delegações seriam colocadas nas instalações do Exército, mas as Forças Armadas precisariam ter sido reforçadas para o evento”, diz Eduardo Boullosa Júnior, presidente do sindicato dos hotéis de Belém. O “erro crucial”, diz ele, foi a busca por casas de luxo para chefes de Estado e governo. “Ao fazerem isso, abriram os olhos dos hoteleiros e criou-se uma imagem de que a COP seria a galinha dos ovos de ouro de Belém”, diz Boullosa.
A COP30 no Brasil foi confirmada em dezembro de 2023. Havia tempo para planejar melhor. O ideal teria sido manter em Belém, na Amazônia, no máximo a reunião dos chefes de Estado, transferindo os encontros paralelos para o Rio de Janeiro, onde já há infraestrutura adequada a grandes eventos internacionais.
Agora, com obras em andamento em Belém, nada mais resta a fazer além de negociar com a rede hoteleira tarifas mais razoáveis. Mas é preciso, sobretudo, evitar o caminho do intervencionismo, que não leva a nada. Se a cobrança de tarifas fora da realidade é abusiva, a tentativa do governo de tabelar diárias é inaceitável e injusta diante dos investimentos já feitos. Tabelamento nunca deu certo.


