Ataque ucraniano à Rússia reflete transformação da tecnologia bélica
Por Editorial / O GLOBO
O surpreendente ataque da Ucrânia que destruiu bombardeiros russos em solo no domingo é um marco na evolução da tecnologia militar. Desfechada de forma sorrateira, a operação mostrou que um enxame de pequenos drones caseiros de plástico, movidos a bateria, foi capaz de provocar danos irreversíveis à principal plataforma de Moscou para lançamento aéreo de mísseis, inclusive os nucleares.
A Ucrânia tomou o cuidado de gravar vídeos dos ataques. Afirma ter usado 117 drones, atingindo bases aéreas em cinco regiões, de Murmansk, perto da fronteira com a Noruega, a Belaya, no extremo oposto do país, a cerca de 4.400 quilômetros de Kiev. O principal alvo foram os tradicionais — e eficientes — bombardeiros russos Tupolev (Tu-22 e Tu-95), aviões de longo alcance estratégicos na política de dissuasão nuclear. Eles têm sido usados para disparar mísseis à noite contra a Ucrânia. Antes do ataque, mais de cem estavam em operação. A Ucrânia afirma ter destruído ou danificado mais de 40. Analistas calculam, com base em imagens de satélite e vídeos, que no mínimo 14 foram atingidos. Foi a maior perda da aviação russa desde a Segunda Guerra. Uma perda irreparável, pois a indústria aeronáutica russa não consegue mais fabricá-los.
A operação Teia de Aranha foi planejada durante um ano e meio, segundo o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. Caminhões levando no reboque casas pré-fabricadas de madeira com os drones escondidos entraram na Rússia e se dirigiram à vizinhança das bases aéreas, onde foram estacionados. Depois, bastou acionar os drones à distância e jogar a carga explosiva sobre os aviões.
A operação ucraniana tem levado potências bélicas a reavaliar suas estratégias no contexto de rearmamento que tomou conta do planeta com a volta de Donald Trump ao poder nos Estados Unidos. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, apressou-se a anunciar que o Reino Unido destinará £ 2 bilhões, de um incremento total de £ 20,3 bilhões no orçamento militar, para drones e outras armas táticas em desenvolvimento. Os Estados Unidos, onde surgiram os drones, correm risco de perder a liderança nessa nova tecnologia bélica. Isso porque os drones leves, hoje responsáveis por 70% dos danos em combates, são fabricados basicamente com plásticos moldados, ímãs e baterias elétricas — mercados em que os chineses levam grande dianteira sobre os americanos.
“O ataque ucraniano aos bombardeiros nucleares da Rússia mostra quão insana e autodestrutiva é a oposição dos republicanos à indústria de baterias”, escreveu em seu blog o economista Noah Smith. “Se os Estados Unidos se recusarem a fabricar baterias, serão incapazes de fabricar drones similares em caso de guerra contra a China.” Em vez de transformar as baterias elétricas em joguete de sua guerra cultural contra o carro elétrico e fontes alternativas de energia, Trump deveria, diz Smith, entender que elas se tornaram questão de segurança nacional.

